Exclusivo Paço
de Arcos
Novela Paço-Arcoense
"O Manuel
da Leitaria"
Grande romance
Paço Arcoense passado no PREC
Com a colaboração
de todas as personagens, vivas e mortas, da Vila mais
importante do país.

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Episódio
1
“Sempre que uma linha
de comboio divide uma localidade ao meio, há sempre uma
parte de cima e uma parte de baixo.”
Fernindó, filósofo Paçoarquiano
Estamos no ano 2008 depois
de Cristo, toda a zona ocidental da Península Ibérica
está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila
habitada por irredutíveis “paçoarquianos” (classificação
oficial, para combater a lusitana “paço-arcoenses”) conseguiu
a sua independência 19 meses depois da Revolução
dos Cravos. Com medo que as tropas do Comandante Guélas
conquistassem todo o território português, o Conselho
da Revolução aceitou a independência de Paço
de Arcos, pondo como condição que não dissessem
nada a ninguém.
I
A Praceta
A fila
na “Jomarte” já dava a volta
à praceta quando o dono da “Leitaria
Vitória”, que vendia “meio-gordo” à taça
traçado com gasosa, resolveu ir dar lustro às maçãs
vermelhas, que enfeitavam o passeio. Ele sabia que mal os raios
do Sol batessem nos citrinos, eles reflectiriam a luz e atrairiam
ao seu estabelecimento todas as velhas pirosas da região.
Era o chamado “efeito mosquito”, técnica de marketing que
o Bigornas da Loja de Fotografia
odiava, porque ele detestava clientes, pois representavam interrupção
na leitura dos livros de quadradinhos. Mas as pessoas teimavam
em engrossar a fila da porta da sua loja, única em toda
a freguesia. A primeira escarreta do senhor Vitório bateu
com violência na maçã e respingou para cima
das couves. Seguiu-se a fase do “dar lustro” com uma cueca reformada,
que deixou a fruta com o brilho esplendoroso de um diamante. Meia-hora
de cuspidelas depois já a “Leitaria Vitória” estava
atafulhada de velhas com o “cabelo em riste”, atraída pela
fruta reluzente.
- Taradas, – disse o senhor Bigornas ao ver o desenho assinado
pelo Vilhena.
No balcão da “Jomarte” alguém tossiu ao ouvir a
voz do proprietário. Até o podiam chamar que ele
só viria quando acabasse a leitura. Em frente ao “Café
Picadily” o senhor Américo
atirou uma carica à cabeça de uma velha que acabara
de sair e que nem notou que o objecto ficara colado à laca.
- Parece que vão à bomba da gasolina, enfiam a mangueira
de pressão no cu e depois da gatilhada o cabelo sobe, –
disse o Daniel, rindo-se.
No estabelecimento comercial do Ligóia
a “ficha-tripla” era o que se estava a vender melhor. Em frente
à porta, mas do outro lado do passeio, o Grilo
passou apressado, com os bolsos carregadinhos de “produto”, para
ser consumido no jardim, junto ao parque infantil, com o seu colega
Taka Takata, que um dia fora considerado
o melhor aluno do Liceu de Oeiras, com nome no Quadro de Honra,
mas que se passara devido ao excesso de hóstias que as
tias o tinham obrigado a engolir na infância. Passara da
gravata à crista-de-galo num abrir e fechar de olhos, e
tudo graças à Revolução dos Capitães,
que tinha introduzido os charros no país. Na curva da esquina,
junto ao Café do senhor Américo, o coronel
Osório, um militar da velha guarda, levava um cartão
vermelho da esposa, que cheirava a pó-de-talco e a naftalina.
Uns metros abaixo, lá para os lados da Avenida, conspirava-se
no coreto. O senhor Pierre-Pomme-de-Terre
transmitia as ordens que trouxera do monte, mais propriamente
da barraca da Dra. Quitéria Barbuda,
na Terrugem. A revolução estava em marcha, a República
Independente do Alto de Paço de Arcos (RIAPA)
iria tornar-se uma realidade, custasse o que custasse. Só
estavam à espera que a anarquia do pós-25 de Abril
refinasse e que a lei caísse de vez nas ruas. Até
lá, todos se deviam preparar, pois cada um teria o seu
papel especial.
- Têm de ir receber instruções ao
café do Manel da Leitaria.
No centro da conspiração de Paço
de Arcos de Baixo (PAB), terra ocupada pela comunistada
burguesa, que erguera a bandeira vermelha no cimo da maior árvore
do jardim da Avenida, estava o senhor Tubarão,
com a promessa de nomeação a general quando a RIAPA
se tornasse realidade. Palavra de honra da potestade de Paço
de Arcos de Cima (PAC), o glorioso Comandante
Guélas. A figura imponente deste futuro militar
era agravada por um par de óculos só de uma lente,
para assim estar mais parecido com um militar do exército
prussiano. Um vulto pequenino e coxo passou apressado pelo grupo
de cinco pessoas e fez, meio escondido, o “V” da vitória,
não fosse algum informador ir bufar-se à Dona
Maria das Bicicletas, braço direito do suíno
da papelaria.
- Está para breve a nossa vitória, – disse com convicção
o anafado Pierre Pomme-de-Terre, que todos sabiam gostar de alardear
heroísmos, mas que na hora decisiva nunca iria dar o corpo
ao manifesto. – Mas para isso têm de encher isto num peditório
pela causa, – e entregou uma latinha redonda a cada um, com um
caranguejo desenhado e uma frase emendada, “Luta Paçoarquiana
Contra a Comunistada (LPCC). – O cabo Bajoulo
irá recolhê-las no final do mês. Agora ide
e que o Comandante Guélas os abençoe que eu não
tenho troco.
A Leitaria do senhor Manuel só vendia meio-gordo tinto
à taça, traçado com um pirolito, como era
tradição na vila desavinda. Situava-se numa encruzilhada,
perto da casa do Mocho, um chefe
tribal apoiante do cimo, que tinha às suas ordens todos
os chulos do Pimenta, o bairro mais elegante da região.
Quando os mandatários do Pierre Pomme-de-Terre entraram
no café do senhor Manuel da Leitaria, o Balatuca
acabara de dar um murro no vidro da máquina de flippers,
tendo esmagado o crocodilo que puxava as bolas, quando se pressionava
o segundo botão direito.
- O “tilt” parou isto tudo, – resmungava. – Eu só levantei
as pernas da frente da máquina.
Mas a revolução escrevia-se torto por linhas direitas,
e o Janeca (que já charrava
cigarros de chocolate) já tinha abafado as bolas, que tinham
ficado a descoberto depois do vidro quebrado, e distribuíra-as
pelos cinco agentes acabados de chegar.
- São munições para quando chegar o dia D.
Na esquina da Dáni o Ánhuca
abriu o saco dos berlindes e cada um depositou o produto. Feito
isto o “burro”, nome de código, rumou ao Alto em direcção
aos territórios do seu mestre Comandante Guélas.
As bolas foram entregues ao Craveiro Lopes,
mas como a nódoa também cai no melhor revolucionário,
o senhor arremessou-as à cabeça do seu grande amor,
de nome Quitéria Barbuda, que caiu redonda dentro da banheira,
em cima de uma galinha que estava a chocar meia dúzia de
ovos, que desapareceram pelo cano abaixo. Estava tão cego
pela grandeza que o meio-gordo tinto lhe tinha dado, que o mensageiro
Ánhuca teve de fugir a sete pés para não
ir fazer companhia às duas galinhas, a Quitéria
e a genuína. Dissimulado na distância estava o Manelinho
do Estrume, agachado atrás de umas silvas, vítima
de uma feijoada exagerada que o obrigava a pulvilhar o entulho
de uma obra clandestina antiga. Assim permaneceu resguardado até
ver desaparecer no horizonte o vizinho, a esbracejar sem nexo
nem sentido, porque reagia mal quando o acusavam de ter pertencido
à PIDE. Afinal a atitude que tivera contra o seu grande
amor devia-se a um equívoco: as palavras que a Quitéria
pronunciara no preciso momento em que o Ánhuca lhe entregara
as bolas dos flippers tinham sido “pica, pica, pica”, enquanto
atirava milho para o galináceo e não “pide, pide,
pide”. Ser um revolucionário era uma arma de dois gumes
– ou matava ou heroicizava.
Episódio
2
II
Razão
e Bons Costumes
Um dos
objectivos do Comandante Guélas
era combater a degradação crescente da qualidade
dos habitantes de Paço de Arcos. Pessoas como o Ánhuca,
o Balatuca, o Grilo,
o Taka Takata, o Ratinho
Blanco, o Bajoulo,
o Pierre Pomme-de-Terre, o Álhi,
o Charlot, o Coronel
Osório, o Mocho, o
Ligóia, o Chico
Americano, o Janeca, o Russo,
o Zé Luís, estavam
agora a ser substituídos pela Tita
dos Pés Sujos, o Xantola,
o Mágu (futuro segundo esposo
da Tita, depois de o Bajoulo a trocar por um camelo cheio de grades
de cerveja), o Volkswagen, o
Bill e muitos outros degenerados que a História
nunca iria mencionar. Passava-se lentamente da Ínclita
Geração Paçoarquiana para uma Geração
Rasca vinda do lado esquerdo da vila. Era preciso travar urgentemente
esta degradação genética custasse o que custasse,
a terra do grande herói Patrão
Lopes tinha de manter viva a lenda dos príncipes
perfeitos. Quando a Tita dos Pés Sujos chegou à
vila, revelou logo ser uma mulher obsessiva, egocêntrica
e dissimulada, com um plano bem definido. Começou por escolher
para namorado um filho dum general, o Bajoulo, irmão do
maior cobridor da vila, que só acasalava no Algarve, no
Verão e longe dos amigos, quando desaparecia nas férias
montado na sua potente Honda 50. Era dissimulada porque mantinha
a aparência da primeira candidata à presidência
da República Portuguesa, a Arlete (que se intitulava anti-fascista,
mas que não passava de uma vulgar ladra de electrodomésticos),
apresentando assim uns pés dignos de pertencerem ao clube
das Meninas do Sado. A obsessão vinha-lhe da mania em querer
tornar realidade o sonho do pai, o senhor Xantola, que era tornar
o seu café restaurante no primeiro em venda de santolas
e cadelinhas. Um pouco mais a norte, na parte de cima da linha,
junto à clínica do italiano que curava hemorróidas,
e outras maleitas do corpo, com cenouras e rabanetes, morava o
Russo, cujas memórias estavam recheadas de tintól
e do amor à sua bebedolas. Os bons estudantes sabiam onde
é que se vendiam os melhores charros: na casa do Grilo.
Os grelos eram bons e os cabritos ainda melhores. Muitos pontos
de venda foram trespassados porque não havia negócio.
Este “paçoarquiano” fininho misturava caldos Knorr e caliça
da Pensão Moreira ao produto, levando os clientes a apanhar
as maiores pedradas da Costa do Estoril. Por tudo isto ele era
o maior ervanário da vila. Os tempos de liberdade também
ajudavam muito o negócio. Entre o Russo, o Grilo e o Craveiro
Lopes havia uma relação triangular, que teve importantes
implicações na independência do Alto de Paço
de Arcos. Mas era difícil imaginar o que tinham em comum
o filho de um picheleiro de Porto Salvo, um fanhoso de Vila Fria
e o herdeiro de um chinês bêbado clandestino. O Grilo
era um dos “dandies” rebeldes da Revolução dos Cravos
que forneceu à vila o modelo definitivo do charro, enquanto
que o Russo revolucionou por completo o estatuto do estudante
das barracas, que levou o seu querido filho Zé
Luís a ir fazer os trabalhos de casa dentro de um
contentor, novidade absoluta do concelho, por uma questão
de sobrevivência, pois a mãe pretendia fazer-lhe
a folha, e ele precisava dela para a aritmética. Quem estragou
tudo foi a camioneta que o ia engolindo com mochila e tudo, não
sem antes ter sentido, de raspão na cabeça, as lâminas
da trituradora, que deixaram uma marca profunda na sua alma, tendo-se
tornado controlador de trânsito involuntário. Era
por isto e muito mais que o Comandante Guélas os queria
para a sua causa. Os acontecimentos precipitaram-se na forma distinta
como cada um dos artistas se foi posicionando perante o Processo
Revolucionário em Curso (PREC). Craveiro Lopes cortou definitiva
e epistemologicamente com o Antigo Regime, conservando unicamente
a sua barraca, que se manteve na mesma até à hora
da sua morte, quando foi detectado três dias depois pelos
vizinhos devido ao cheiro pestilento, que até aí
tinha os pés do Ánhuca como causa principal. A homenagem
que a República Independente do Alto de Paço de
Arcos lhe fez, ficou para sempre gravada na memória da
geração que nasceu a respirar a “libertação
da liberdade”, como disse o velho poeta Fernindó na altura
em que atiravam com os restos, impróprios para consumo,
do primeiro assessor do Comandante Guélas, para o buraco
onde já estava a mula do Manelinho
do Estrume, atropelada mortalmente pelo primo surdo-mudo
e outras coisas mais, do João da Quinta.
- Vai a montar para o outro mundo, – gritou traumatizado o Charlot.
– Mas desta vez não monta a Quitéria, nem as galinhas,
mas sim algo maior, a Rosinha, companheira inseparável
do Manelinho, que fica agora reduzido ao único filho fêmea.
Viva o Craveiro Lopes, viva o nosso bem-amado país. E agora
o hino…
E todos cantaram o hino do seu país, o “É Motorista”,
que ecoou pelas redondezas, mostrando a força e a raça
desta gente descendente do Viriato.
"Eehhh
motorista
e o preto preto branco
Precausa da criação
Precausa da sua direita
comigo é uma canção
Eu vou
pelas estradas,
estradas de corrimão.
Estava lá o Charlot
a cantar a nova canção
Mas qui
tudo, mas qui tudo
Mas qui tudo da criação
estava lá o Charlot
com 2 franguinhos na mão!
Eehhh
Motorista
E o preto, preto banco
Precausa da criação
Precausa da sua direita
Comigo é uma canção
Eu vou
pelas estradas
Estradas de corrimão
Estava lá o Charlot
Com dois franguinhos na mão
Mas qui
tudo, mas qui tudo
Mas qui tudo da criação
Estava lá o Charlot
A cantar a nova canção
Ehhh Motorista
E o preto, preto branco
Precausa da criação
Pré causa da sua direita
Comigo é uma canção
A aura
aristocrática do senhor Charlot, de nome oficial
Daniel, levava-o a cantar de uma forma muito intuitiva,
emocional e energética, enquanto que os companheiros pareciam
cavalos desenfreados, mostrando no entanto uma simbiose única
na Costa do Estoril. A causa da sua grandeza devia-se ao facto
de se ter confrontado, muito novo, com o lado negro da vida. Conseguiu
construir relações fortes com os outros, que lhe
melhoraram a vida. Era nestas ocasiões de excitação
patriótica que conseguia incitar os campos magnéticos
da memória e ludibriar a pouca razão que possuía,
exorcizando o demónio que morava em si, o Baiona. Os inimigos
temiam-no, pois era nestas ocasiões que lhes ferrava os
dentes. Com ele por perto os do Sul sentiam-se sempre numa situação
de insegurança e de perplexidade. O Charlot era o mito
no Norte, só ele conhecia o Comandante Guélas.
Episódio
3
III
Pré
– Solaris
O “Tino” era uma daquelas vetustas
e tradicionais instituições “paçoarquianas”
de cavalheiros, com amplas salas, fruto de uma árdua construção
clandestina, com cadeiras de madeira carunchosa (mais conhecidas
como “suma–à-pau”), paredes cobertas por antigas escarretas
dos membros passados e presentes, e do inevitável calendário
com uma loira de mamas até aos pés. Incluía
também uma biblioteca com jornais “Record”, a “Bola”, as
clássicas “Ginas” e um placard onde se afixavam os nacionais
“há pipis” e os regionais “caracoletas das Fontainhas”
e “camarão da Cruz Quebrada”. A um canto da sala dos “flippers”
um busto de sereia com verdete suplicava a quem, por descuido,
se tinha apropriado dos mamilos, os devolvesse por amabilidade.
Foi justamente aqui que se licenciaram a maior parte da elite
de Paço de Arcos, a ouvir a música do futuro país,
o “É Motorista” do senhor Charlot.
Foi no dia 11 de Setembro de 1974, com céu limpo e azul-pálido
pontilhado com pequenas nuvens brancas que aqui chegou de novo
o mensageiro Ánhuca, trazendo
as instruções para a maior operação
de terrorismo da Costa do Estoril. Uns dias antes o Marreco
Projectista do Cine-Teatro da Vila, que se situava junto
ao Chalé da Merda, tinha,
depois de vários meio-gordos branco, revelado a surpresa
que o Comité Central estava a preparar para cativar a população
para a sua casa: a exibição do filme “Solaris”,
de borla mas com peditório obrigatório.
- O senhor Carlos Ponta irá
à drogaria do António da Lúcia
comprar “Litopol” e meia-hora depois, para não dar
nas vistas, será a vez do camarada Mac
Macléu Ferreira adquirir uma garrafa de “Ácido
Muriático”. A entrega será feita na Terrugem no
local habitual, - informou o Ánhuca,
desaparecendo na sombra.
Qualquer desejo do Comandante Guélas
significava uma ordem. Quando o mensageiro aparecia todos sentiam
a mesma ansiedade, surda e venenosa, no estômago. O espírito
do chefe era extremamente organizado e obsessivamente dirigido
para o elemento visual. Era um indivíduo em constante mudança,
cuja única imagem oficial revelava um vulto dentro de um
fato completo de risca branca fininha, chapéu na cabeça,
agachado atrás de umas ervas, que tinha como missão
salvar a sua terra da devastação moral que se adivinhava,
pois tinha chegado o tempo dos assassinos destituídos do
senso moral. A população de Paço de Arcos
começara a perder a capacidade de confiar na competência
justiceira do Álhi, um bombeiro
simples de espírito. Mas aconteceu o imprevisto. Duas horas
depois do senhor Carlos Ponta ter entregue o pó no “Manuel
da Leitaria”, não havia sinal do ácido. O Craveiro
Lopes estava passado e já tinha arreado de novo
na Quitéria Barbuda que dormia de novo na banheira, em
cima de uma outra franga.
- Vai chamar o Conan, – ordenou o segundo na hierarquia de Paço
de Arcos de Cima. – Quero o líquido aqui, dentro de meia-hora.
O atentado tem de ser hoje, o dia 11 de Setembro ficará
para sempre gravado na memória olfactiva de todos.
Felizmente o Conan Vargas estava
em casa quando o Ánhuca tocou à campainha. À
porta apareceu o extravagante «dandy», cultor do «deboche»,
«socialite», alcoólico, «junky»
erotista e pintor, que se gabava de dar “sete de seguida sem ver
a luz do Sol”, vestido com um pijama de veludo cor-de-rosa pálido.
Esta missão foi um empurrão vigoroso para os mais
altos voos deste enorme “paçoarquiano”. Foi com a fé
numa causa que considerava justa, que Conan desceu e subiu a montanha,
trazendo o milagroso líquido, que tornou a descer pelas
20H30, mas agora levado pelo assombroso Milhas.
Nesta guerra fratricida entre o Norte e o Sul de Paço de
Arcos, ou melhor, entre a Parte de Cima da Linha (PCL) e a Parte
de Baixo da Linha (PBL), nunca houve cadáveres, não
porque não houvesse motivações, mas porque
a festa era outra e incluía sardinhas assadas e vários
garrafões de meio-gordo branco, a bebida espirituosa da
vila, que proporcionava, nestes tempos tão quentes, um
incomparável deleite social, que tornava as pessoas cultas,
imagéticas e sofisticadas. E muita desta paz deveu-se ao
poder demiúrgico da imaginação do senhor
Pierre Pomme-de-Terre que não
tinha limites e ficava assim com um poder absoluto sobre as suas
capacidades linguísticas. Devido a isto conseguiu convencer
e vender a um sulista fanático, de nome Titó,
uma fotografia do Doutor Oliveira Salazar, com uma legenda que
o identificava como um homem muito ligado aos trabalhadores, e
a um nortista do mesmo calibre, uma fotografia do Doutor Álvaro
Cunhal catalogado como um destacado dirigente da União
Nacional.
Na Praia Velha, que um dia fora exclusiva de um rei, andava sempre
pela manhã o Todo Boneco,
mais a sua Diana 28, caçando pardais para o almoço,
e à noite caçando empresárias para a ceia.
Quando o Sol do amanhecer iluminava as escadinhas, sentava-se
calmamente, atirava pão duro para a areia, pondo os pombos
do Sul, que moravam nos apartamentos da Avenida, em luta aberta
com as gaivotas do Norte, que tinham chalés na lixeira
de Vila Fria, ficando pelo meio, aproveitando as migalhas, os
pardais, que iam caindo que nem tordos, à medida que o
chumbo saia da Diana do Todo-Boneco. Quando o Sol de punha, esperava
escondido atrás dum barco pelas donzelas e com a ajuda
de um colega de curso, fazia uma emboscada à zebra mostrando-lhe
a sua Diana, conseguindo assim vários servicinhos de borla,
acabando mais tarde no “Bachil” a
falar das subtilezas da sua arte.
Episódio
4
IV
11 de
Setembro de 1975
A Praceta
prometia ser o palco de um motim, naquela noite abafada do dia
11 de Setembro de 1975. O senhor Trovão,
o adolescente mais pequeno da vila de Paço de Arcos, a
seguir ao Marreco do Cinema, tinha
descoberto a dedada de óleo com que o Chico
Sá lhe grafitara o motor reluzente da sua mota,
que só saia à rua na época balnear para não
se constipar. Os berros, os urros e os flatos que saíam
pelas orelhas do pequeno polegar eram tantos, que dava a sensação
de um comício de antifascistas. O largo estava atafulhado
com uma muralha heterogénea de gente.
- Nesta última semana a comunistada tenta amedrontar-nos,
-gritou o Trovão, espumando das orelhas. – Esta é
a prova da sua crise espiritual com drogas ilícitas, –
e apontou para a impressão digital.
“Crise espiritual com drogas ilícitas”?!! Como é
que um indivíduo com a “Infantil incompleta”, que conseguiu
chumbar mesmo com as “passagens administrativas” decretas pelo
governo, podia debitar palavras burguesas sem se engasgar?
- É melhor agarrarmos no pequeno antes que ele morra sufocado
de tanta palavra cara, – alertou o Zé
do Fotógrafo, o irmão mais velho do Bigornas,
dando um toque ao Escoto, que se
preparava para entrar na RTP com uma cunha do pai. Mas o orador
insistia:
- Eles pertencem a uma geração sem perspectivas.
Os olhos dos políticos estavam agora fixados naquele “noddy”
em crise de crescimento intelectual. Quem o possuísse,
alcançaria a vitória.
- Com este Meco ganharemos todas as reuniões na Comissão
de Moradores, – disse o Titó,
dando um toque no camarada que estava ao seu lado.
Mas graças ao Comandante Guélas
os amigos chegaram primeiro. Foi agarrado pelas pernas e braços
e obrigado a sentar-se num dos ferros do jardim que delimitava
a erva.
No “Manuel da Leitaria”, nome de código da base onde se
iniciavam todas as acções de subversão do
norte burguês, o comando esperava com preocupação
a chegada da outra parte do produto, trazido pelo inconstante
Milhas, que insistira em vir montado na sua Honda 50. E
o já previsível aconteceu: o beduíno marrou
contra um carro e a garrafa caiu do saco e fugiu em direcção
à vila.
- O Litopol pirou-se, – gritou o João
da Quinta, avisando o Graise que estava mais abaixo.
Mas este só se ria, olhando para o Milhas que estava sentado
no alcatrão a olhar para a cicatriz de outro acidente de
mota, apesar de só ter batido, de raspão, com o
braço do outro lado. Os milagres acontecem e este ficou
para a República Independente do Alto de Paço de
Arcos, como Fátima está para Portugal. Quando tudo
parecia estar perdido para a causa do Norte da vila, pois o ataque
ao ninho comuna faria a diferença entre submissão
e libertação, o Xinoca
tinha sido retido junto ao café “Oceania” por um
militar que viera da guerra.
- Jovem, – disse o Capitão Porão
agarrando no adolescente. – Tenho uns filmes de Cabinda em casa
para tu veres. E ainda tens direito a um cházinho de borla
porque estás um pouco amarelado.
Nisto a garrafa galgou o passeio e bateu com violência no
rabo do ex-combatente, que fez eco. O chinês “paçoarquiano”
aproveitou a distracção do atacante e fugiu com
a garrafa em direcção ao centro da vila. Junto ao
à leitaria do senhor Manuel teve de parar, pois já
ia na “redline” e precisava de uma pinga de rum para continuar
a viagem até ao cinema. Quando se preparava para tirar
a tampa apareceu o Ánhuca de
dentro da base e gritou:
- Espera camarada, quem vai abrir isso é o Cocas
e o Peidão. A tua missão
acabou aqui, és um herói.
E foi por aquela ordem que se deram os acontecimentos. Quando
a longa-metragem russa já estava a rodar, com o cine-teatro
de Paço de Arcos completamente cheio, numa noite de Verão,
o revolucionário Todo Boneco
disse a senha, durante uma ousada cena de um beijo na boca:
- Espera aí que já cospes!
De imediato o Cocas colocou no chão a caixa de fósforos
carregadinha de Litopol e o Peidão
despejou o Ácido Muriático.
Ficaram a olhar para a reacção e mal tiveram tempo
de se afastar da nuvem em forma de cogumelo que se formou e desapareceu
para os lados do balcão. O Chico Sá tinha acabado
de chegar e fugiu em debandada. Atrás dele foi o cinema
inteiro, incluindo o Marreco Projectista, o Marreco
Marreco, o Focas, que calcou
os cornos do único preto existente na vila, que já
estava a dormir com a cabeça encostada no ombro do Conan
Vargas e os pés nauseabundos ao léu.
- O povo é sereno, – gritava o Titó, – isto é
só fumaça, só fumaça.
- Qual fumaça, qual carapuça, isto é merda
pura, ó camarada – disse um jovem xungoso com uma t-shirt
de foice e martelo, que passou em passo acelerado pelo distribuidor
local do “Avante”. Os dados estavam lançados, a revolução
para a independência do Alto de Paço de Arcos estava
em marcha. Não iria ser só Angola, Moçambique
e as outras colónias que iriam ter a independência,
mas sim todas as terras que o merecessem. Não houve mais
“Solaris” para ninguém, ou melhor, só para os camaradas
a quem foi barrada a fuga, incluindo o Milhas, que estava ali
não por uma questão política, mas sim porque
tinha sido o único otário a pagar bilhete.
Episódio
5
V
Rumo à
Vitória
Apesar
de um lapso de memória que o obrigou a urinar nas calças,
toda a gente elogiava a boa – forma do Craveiro
Lopes e aquilo que havia sido o sonho deste visionário:
lutar pela libertação da sua terra. Estava ali,
perante toda a Terrugem e arredores, tendo por companhia a sua
eterna musa de bigode, a Quitéria,
o homem decisivo, determinado e duro, que não dobrava nem
torcia, a bem do povo e do futuro. O ferrabrás abriu os
braços, avançou sozinho para aquela gente indefesa,
como os reformados, e provou ao inimigo que era irresistível.
No centro da vila, debaixo do coreto da Avenida, o Titó
fazia uma reunião extraordinária para avaliar
os danos do atentado do M.I.R.N.E. (Movimento Independente da
Restauração do Norte Estudantil).
- Claro que devemos preocupar-nos com o facto de ter havido este
atentado violento ao olfacto do povo. Mas confundir isto como
uma “derrota final”, é o mesmo que dizer que o nosso informador
Pierre Pomme-de-Terre anda a ganhar
dinheiro à custa dos dois lados.
- Camarada, mas o cheiro era insuportável, e todos aqueles
colegas que foram obrigados a ver o resto daquela merda de filme,
perderam o olfacto, – interrompeu o estudante
Bill. – Muitos deles já não conseguem distinguir
pelo faro um revolucionário dum fascista.
- Deixei de conhecer a minha Maria através dos sovacões.
Quero uma indemnização do Comité, – gritou
um camarada mais exaltado.
- Isto tudo é verdade, temos de contra-atacar, – insurgiu-se
o extremista Pierre Pomme-de-Terre. – Eu tenho a solução
para isto tudo, e vai-vos sair barato com o desconto de revolucionário.
- A nossa resposta vai doer e vai ser dada já amanhã
na Comissão de Moradores no Jota Pimenta.
- E como?!
- Vamos tirar o direito de voto aos moradores dos chalés,
os do Norte. O Carlitos do Cu Vermelho vai interpelar a mesa e
lançar a ideia de proibi-los de votarem por serem fascistas.
A proposta irá passar, porque nós iremos lá
todos, enquanto eles estarão entretidos em frente às
rádios, no café Picadili,
no derby ”Burrinhos da Pradaria” – “Patrões Lopes”. Com
a lei na mão Paço de Arcos será eternamente
do povo. Até amanhã camaradas!
No topo da vila o senhor Craveiro Lopes, assessor do Comandante
Guélas, tinha dado a palavra ao Ánhuca,
o porta-voz e o ideólogo da causa:
- Todos os guerreiros também cagam. Os nossos inimigos
estão fragilizados, já não têm capacidade
para nos detectar.
No momento em que o Norte proclamava vitória ao som das
palavras sábias de um filósofo, no Sul o senhor
Palitó, barbeiro do partido
e proprietário de um estabelecimento aberto ao público,
mostrava orgulhoso aos amigos a espingarda que tinha comprado,
com desconto de camarada, ao Pierre Pomme-de-Terre.
- Mas o cano está torto, – disse o Titó.
- O camarada vendedor informou-me que esta arma é a única
da Península Ibérica que acerta nos coelhos quando
eles vão fazer uma curva.
- Queremos fazer a terra da utopia, - gritou o Ánhuca,
amparando o Craveiro Lopes, o herói da Serra da Terrugem
que mal se aguentava em pé devido ao excesso de meio-gordo
branco. – Este homem que está aqui, encostado a mim, é
o porta-estandarte do nacionalismo “paçoarquiano”.
No meio da multidão um menino gordinho e caixa-de-óculos
agitava tanto uma bandeira da “Olá”, que chamou a atenção
do orador. A uma ordem deste, um dos muitos filhos do Manelinho
do Estrume foi buscar a criança
para o palanque, aproveitando a ocasião para lhe gamar
o “baunilho-chololate”.
- Tenho aqui, junto a mim, um representante da geração
que vai crescer em liberdade. Como é que te chamas, ó
petiz? – Perguntou, dobrando-se carinhosamente sobre a criança,
e não resistindo ao pecado de apalpa-la.
- Isaltino, – respondeu muito a custo
o menino gordo.
- Isaltino?!! Nome de pássaro exótico! Fixem este
nome que vai daqui abençoado pelo Comandante Guélas
e ainda trará muitas alegrias à nossa terra, - gritou
para a multidão em êxtase, apontando para o céu.
Mas o dia tinha ainda mais atracções, o Atlético
Clube da Terrugem, cuja política era a de não contratação
de jogadores não-terrugenses, iria jogar com o Benfica
Clube Comité da Avenida, cuja política era a não
contratação de jogadores não-camaradas. O
desporto, tal como a política, tinha destas coisas, levar
as pessoas a passar, durante noventa minutos, da sua loucura interior
para a loucura exterior. O embate teria lugar em campo neutro,
no Estádio do Batatinha, em Vila Fria, junto à lixeira
municipal.
A arquitectura dos edifícios públicos (a Barraca
do Craveiro, a Garagem da mula do Manelinho, o Pombal do João
da Quinta, o Chalé do Todo-Boneco)
e privados (o Mirante do Pitrongas,
a Casa dos Milhas) do Norte de Paço
de Arcos, a elegância com que as mulheres usavam os mesmos
vestidos e as mesmas cuecas o ano inteiro, a atmosfera da alta
sociedade da Terrugem, que atestava refinamento social extremo,
contrastava com a nudez, a rudeza e a ignorância da população
do Sul de Paço de Arcos, devido a fantasias ruinosas de
planificação económica.
Episódio
6
VI
Até
amanhã Camaradas
A resposta
do Sul marxista foi brutal. Organizaram
um festival urbano-depressivo na Avenida, com o coreto, símbolo
da Revolução de Abril, como palco. No cartaz de
espectáculos dois pesos pesados do mundo artístico
da Costa do Estoril: a lendária banda de “Carlos
Ribeiro Mais 4” e os profetas do Rock progressivo os “A
Ferro e Fogo”. Pretendiam criar um verdadeiro “estado de
arte”. Mas havia mais, muito mais. No lado esquerdo o Baile dos
Bombeiros Voluntários convidava ao deboche e no lado direito
a Cremesse fazia um apelo à generosidade do povo, num acordo
com o Comité de fifty / fifty, isento de política
e atestadinho de pragmatismo. Pretendia-se com este evento cultural
dar a volta ao miolo da arraia-miúda. O senhor Balacó,
que se auto-intitulava o General Vermelho, tinha conseguido o
apoio dos piores cegos, que estavam cheios da indiferença
e das mentiras do Comandante Guélas
que, segundo eles, tinha uma visão arcaica de Paço
de Arcos. Quando o Balacó lhes prometeu recuperarem a visão,
roubada pelos antepassados dos fascistas
do Norte há muitos séculos, a multidão
inflamou-se espontaneamente como simples fogo-fátuo, ou
para ser mais popular, fogo-flato. E agravou a situação
quando contou as piores profecias para aqueles que caíssem
nas mãos do inimigo: a tortura do sono, em que o prisioneiro
ficava fechado numa cave escura com as meias do Ánhuca
penduradas no tecto, e nos casos mais graves com as cuecas do
Bajoulo e o senhor Peidão
em pessoa. Neste comício foram usados os modernos ilusionistas
da realidade virtual, o Gang Madness da Tapada, guiados pelo seu
Líder Supremo, o Super-Cabeçudo, que fora um dia
antes à loja do senhor Bigornas,
para lhe pedir que colocasse a sua foto na montra.
A Avenida estava cheia de gente quando os 7 elementos da banda
sensação “Carlos Ribeiro Mais 4” subiram ao coreto.
Na estação de Paço de Arcos, a fronteira
entre o Norte burguês e o Sul proletário, o senhor
Pierre Pomme-de-Terre
fazia um peditório para a constituição de
um património artístico público em Paço
de Arcos, que seria depositado no Chalé da Merda. A um
canto, junto à bilheteira, o senhor Bajoulo beijava a dona
Tita dos Pés Sujos com paixão, ternura, cerimónia,
afecto, amor, exuberância, numa troca de sabores, cheiros,
texturas, segredos e emoções, ao mesmo tempo que
debicava numa cervejola poisada no banco, comprada minutos antes
no “Bachil”, o café da moda,
propriedade do senhor Pinguim, que
fizera toda a sua carreira especializando-se na ruína dos
outros. Neste espaço de fronteira cruzavam-se duas civilizações
de Paço de Arcos que se sobrepunham e se estranhavam, com
religiões distintas, animais exóticos, em que o
Sinai, o cão do Milhas,
era o mais original, com um tufo num olho e orelhas de burro,
e comidas inacreditáveis, como por exemplo “xantolas escarradas”
no restaurante do senhor Xantola.
Um pouco mais abaixo, o senhor Capitão
Porão andava atarefado a tentar transformar o seu
apartamento num templo iniciático para adolescentes, ao
mesmo tempo que comia azeitonas pretas. Era altivo quando fisgava
o cabrito que desejava assar e humilde quando se preparava para
lhes comer os legumes. Dizia aos jovens que em vez da precipitação
e leviandade, a vida podia ser feita de sabedoria e prudência.
A montagem do palco, a iluminação e o sistema de
som ficaram a cargo dos senhores Cientista
Maluco e Bakaus,
aquele que utilizava como fiel da balança o seu desempenho
sexual, que ainda tiveram tempo de ir gamar umas lâmpadas
ultravioletas às máquinas de jogos do maior Centro
Comercial da Costa do Estoril, o “Áries”,
situado por debaixo do apartamento do Capitão Porão.
Os empresários Piu e Toni,
proprietários do espaço, nem os viram, pois estavam
a recolher as moedas de 5 tostões espalmadas que faziam
a vez das de cinco escudos, preço oficial, que atestavam
as máquinas de fliperes. Ao inicio da noite a Avenida já
estava animada com os fãs xungosos do Sul trajados a rigor,
vestidos de negro, porque já não mudavam de roupa
desde o dia da Revolução dos Cravos e que pertenciam
ao proletariado, e os queques burgueses do Norte, trajados a rigor
pelos “Profírios”, com direito a maquilhagem e cabelo com
Pitralon 2000.
Episódio
7
VII
O “Cantinho
das Putas Velhas”
À
medida que a Revolução dos
Cravos avançava, a amizade entre o jovem Bajoulo
e a menina Tita dos Pés
Sujos parecia cada vez mais madura, profunda e indestrutível.
Mas ambos revelaram-se incapazes de fugir ao destino, apesar da
pujante herança genética do macho. Era dia de Comissão
de Moradores e todas as atenções estavam viradas
para o Clube Desportivo de Paço de Arcos. Todas?!! Todas
não, pois havia um derby no Real Campo de Vila Fria, propriedade
do Abromobatatinha, junto à lixeira. O encontro era de
gigantes, os “Burrinhos da Pradaria”,
clube centenário da parte de cima da linha iam defrontar
o “Real Patrão
Lopes” da parte de baixo da linha. Enquanto isso
na Leitaria do Manuel conspirava-se baixinho, à medida
que se enfiavam umas bejecas pela goela abaixo ao som do barulho
das novas bolas mecânicas da máquina de flippers.
Os do Norte davam os últimos retoques nos planos do novo
ataque com Litopol, enquanto que os do Sul concluíam os
retoques finais da tomada do poder com a “palavra”.
A tradição cumpria-se com mais uma primeira parte
de um jogo a chegar ao final sem a intervenção externa
do apito. Pela milésima vez o Chico
tinha atingido a “redline” e queimara as juntas da cabeça,
colando-se à sombra do Tio Fininho,
que estava impecavelmente vestido com um equipamento preto de
ciclista, comprado na “Maria das Biciletas”.
O estado de alma do Chico reflectia-se no fumo que lhe saia pelas
orelhas e na cor avermelhada que lhe forrava a “fácies”.
Estava à beira de um ataque de caspa! Ao longe o papá,
impecavelmente vestido com um equipamento do Sporting, que incluía
meias e chuteiras verdes do Ánhuca,
tentava trazer o filho para a realidade, sabendo de antemão
que tal seria impossível, porque uma vez o mal instalado
nos genes, não havia nada que conseguisse apagar o tal
risco profundo que, em quase todos os jogos desta liga milionária,
colocava o pequeno-grande Chico à beira do precipício.
- Chico, não lhe ligues, o Fininho
é assim mesmo!
Mas nada demovia o colosso de estar colado à sombra do
“tio”. O mal dele era ter ido para o curso de Logística
de Mulas. Desde esse momento o tio Fininho
tornara-se muito exigente com os estudos do “sobrinho emprestado”,
um rapagão que trocara os livros pelos copos, fazendo-lhe
interrogatórios massivos sobre o comportamento da “Carreira
para o Pimenta”. Pelo meio ia-lhe agradecendo os golos que teimavam
em entrar na baliza da equipa de que o colosso do Marinheiro
fazia parte, tendo como companheiro o inebriante Milhas,
que teimava em dar orientações tácticas desde
que o apito assinalara o início da partida. E no calor
da discussão ninguém se apercebeu da saída
intempestiva do careca de meia-idade, que tinha atingido o prazo
de jogabilidade, em virtude de ter sido traído pela “claustrofobia
por espaços vastos” que o impedia de respirar, compensando
o défice com escarretas fininhas. Pelo meio o Médico,
sobrinho do Chico Sá, do Espalha
e do Peidão, interrogava o
Pequeno Polegar, de nome de guerra Biblot,
sobre os motivos que o levavam a ir sempre disputar as bolas altas
nas Grande Áreas. Mas o assunto da jornada era a grandiloquência
do Chico, que teimava em rosnar junto ao “tio”, enchendo-lhe o
fatinho de perdigotos, e isso o jogador Fininho não tolerava:
- Não me diriges a palavra com a boca cheia de azeitonas,
– indignou-se o jogador com equipamento de ciclista, apontando
um indicador ameaçador ao “Colosso das Palmeiras”.
E nisto uma bola tresmalhada passou a rasar a cabeça do
Milhas. Tinha sido o Ruben, que ainda
não se apercebera que o jogo estava em “pausa”.
Lá em baixo, muito em baixo, o Titó
dava uma martelada na mesa para dar inicio a mais uma sessão
de povo, muito em voga nestes tempos quentes.
- Recebi uma proposta de um camarada do lado esquerdo da bancada,
que propõe retirar o direito de voto aos moradores dos
chalés, - gritou o imparcial membro da mesa, aplaudindo
a ideia. – Quem vota a favor?
Muitos dedos no ar.
- Quem vota contra?
Muitos dedos no ar.
- A proposta foi aprovada por maioria.
Aplausos de um lado, insultos do outro, um dedo no ar no balcão
do meio.
- Tenha a palavra o cidadão Ratinho
Blanco.
- Amigo e companheiro Titó, com esta resolução
os moradores dos chalés deixam democraticamente de ter
direito ao voto?
- Correcto e afirmativo!
- Então vai haver aqui uma maioria silenciosa?
- Minoria, quer V.Exa. dizer. Uma minoria de fascistas, que moram
em chalés.
- Mas eu também moro num chalé, nas pedreiras. As
barracas também são vivendas, que em vez de relva
têm couves.
Estava lançado o caos. O agente encoberto do Comandante
Guélas, o cabo Ratinho Blanco, lançara a
confusão no meio do povo e já ninguém se
entendia. O Sul perdera mais uma batalha, desta vez a “Intelectual”.
Tentaram contra-atacar com a idade de voto, mas só pioraram
a situação.
Em Vila Fria dava-se início à segunda parte do encontro.
O tempo era de mudanças, a Velha Geração
de jogadores formada na Praia de Carcavelos, com o esgoto a servir
de linha lateral, estava a receber novos reforços, filhos,
sobrinhos e amigos destes, que traziam uma nova dinâmica
à modalidade, para pior, uma vez que esta juventude estava
mais habituada aos copos sentados do que aos copos em pé,
reflectindo-se estes maus hábitos na sua péssima
condição física. E esta característica
fazia toda a diferença neste tão popular desporto
de “fim-de-semana com autorização escrita das mulheres”.
Mas havia alguém que andava com a cabeça à
roda por causa desta invasão de tenrinhos, aparecidos por
geração espontânea. Eles tratavam-no com respeito,
diziam “sim” aos seus convites para tertúlias em sua casa,
mostrando serem muito diferentes da Geração Fascista
dos pais e dos tios, como por exemplo o Chico Sá, que perguntava
sempre aos amigos “Ouviste o eco?” de cada vez que a bola batia
com violência no “bumbum” do Capitão.
Os tenrinhos até o tratavam por “Tio
Porão”! Ao aceitar o lanchinho do Capitão
Porão, o Tona revelava
não estar com a lucidez necessária, nem nunca ter
ouvido falar da história do “Capuchinho Vermelho”. Foi
preciso passar algum tempo, deixar baixar a poeira, ganhar a distância,
para que os amigos o confrontassem com a verdade. Este “inocente”
convite do militar de Abril mudou para sempre a carreira futebolística
deste jovem ingénuo e veio mostrar o fosso que separava
aquelas duas gerações de “profissionais” da bola.
O jovem careca não estava habituado a deparar-se sempre
com um defesa adversário que protegia a sua área
e a bola de costas viradas para ele. E tantas foram as vezes com
que se deparou com um “bumbum” a convidá-lo para a luxúria
que, tal como a Leonor do poema, acabou por partir-lhe a bilha,
mais propriamente enganar-se e chutar no pé do velho, em
vez de o fazer no esférico. Por momentos aqueles dois corpos,
um tenrinho e o outro com caruncho, moveram-se, agiram, num único
movimento sussurrante, tocando-se levemente no ar, num gesto que
se aproximou dos outros coxos, com um virtuosismo técnico
tão elaborado, que fez com que ninguém visse que
o Milhas tinha tocado com as duas mãos na bola. O reencontro
do Pona com o Capitão teve uma sensibilidade poética,
que levantou a dúvida quando se deu o contacto do corpo
rançoso com o solo e dele saiu um grito alucinante com
diferentes interpretações:
- Foi um gostinho, – disse o Fininho.
- Deu o berro, – atirou o Chico Sá.
- Perdemos o guardião do saber e da memória de uma
espécie de homem que um dia nos treinou para o Torneio
de Futebol de 5 no Pavilhão de Paço de Arcos, –
lamentou o Milhas, deixando cair uma lágrima.
- O Capitão é que se esborrachou, mas o Milhas é
que está a delirar, – exclamou o Peidão.
- É falta do velho! – Sentenciou o único jogador
lúcido, o Caramelo, sobrepondo-se
à decisão do árbitro que estava ao seu lado,
a tentar soprar no apito que tinha entupido com um pedaço
de tremoço servido pelos representantes do Sul, no intervalo
O caso não era tão simples e natural, tinha agora
uma dimensão metafísica. A imagem do mais velho
jogador vermelho de futebol de Paço de Arcos esticadinho
no pelado, estilo bacalhau, iria ficar gravada para sempre nas
memórias de todos, como um momento único, desarmante.
Mas ninguém se apercebera das terríveis consequências,
ao nível político, que este espectáculo,
simples e natural, iria ter sobre o PREC.
Dali para a frente tornaram-se diferentes. Fora preciso aparecer
uma nova revoada de tenrinhos para atirar por terra e arrumar
a excitante carreira militarista do mais capitão de todos
os capitães, a seguir ao Patrão Lopes. O dinossauro
foi ao chão em decúbito ventral e por lá
ficou no meio de estranhos movimentos de cobrição
e dor. Quanto ao Tona, encontrava-se de pé debruçado
sobre o ferido, sem saber o que fazer. A Velha Geração
aconselhava-o, por gestos, a deitar-se sobre o moribundo, evitando
que ele arrefecesse, e também como forma de compensação
pelos danos sofridos. Mas o Capitão queria outro, o futuro
Médico e disse-o em estilo comando:
- Tiago, leva-me a casa!
Todos imaginaram a entrada do militar em casa ao colo do tenrinho,
tal qual um par de recém-casados. A recusa do contemplado
foi imediata e as atenções voltaram-se novamente
para o Pona, que tentava escapulir-se da zona do acidente.
- Eu vim de mota, – desculpou-se, abrindo os braços.
- O ferido não se importa de ir sentado de lado, muito
agarradinho, – esclareceu o Chico Sá.
Quem ajudou o Capitão a instalar-se no Mini e a desenrascar-se
a partir daí foi o Choné,
um jogador com uma perna-de-pau e uma careca maior e muito mais
velha do que a do Tona. Quanto ao velho, não teve outro
remédio senão pendurar as chuteiras junto às
recordações de África, as caveiras de antílopes
e as cabeças em pau-preto, com as cuecas do pelotão!
O Norte do Comandante Guélas saia deste jogo com uma estrondosa
vitória sobre o Sul vermelho. A notícia caiu que
nem uma bomba no “Manuel da Leitaria”. A zona dos flippers comemorou,
a zona da bisca lambida chorou. O agente duplo Pierre
Pomme-de-Terre deu a notícia aos homens do Coreto,
que já estavam de rastos com os acontecimentos no Pavilhão
do “Jota Pimenta”.
- Os fascistas não podem ganhar a guerra, é injusto
meu Deus, - gritou o Balacó
pondo-se de joelhos junto a uma virgem meteorológica que
tinha como vizinha uma vela acesa, para lhe manter em permanência
a cor vermelha.
Episódio
8
O Poeta Fernindó
Os 120
anos da morte de Fernindó
foram aproveitados pelas duas comunidades desavindas. Todos sabiam
que na barraca dos herdeiros, filhos da meia-irmã (da cintura
para baixo), havia cerca de 500 documentos, a maior parte bocados
de papel higiénico com poemas, cromos, listas de gamanços
e apontamentos diarísticos, todos em tom pastel numa das
faces. O Sul pretendia levar tudo isto para o Comité Central
e daí para a URSS, e o Norte prometia depositá-los
no Núcleo Central do Chalé da Merda, a mais bem
gerida casa da cultura da Costa do Estoril, o único lugar
condigno na vila para receber toda a arte rupestre de Paço
de Arcos. Pelo meio estava o sempre presente Pierre
Pomme-de-Terre, figura central de todo o PREC da vila,
que sabia do valor destes documentos, ou seja, nunca tinham sido
inventariados por terem ficado de fora do arrolamento feito pelo
ministro da Educação português nos finais
dos anos 60, o Saraiva. Se levasse os poemas do Fernindó
para o estrangeiro, vende-los-ia por uma fortuna. Foi por isso
que contactou de imediato os agentes do Sul na Leitaria do Manuel
e à noite já estava na cave do Coreto da Avenida.
- Camaradas venho aqui, mais uma vez, oferecer os meus préstimos
à causa popular. Sei que estão interessados nos
500 pedacinhos de papel do grande poeta “paçoarquiano”
e eu vim para vos ajudar a ganhar esta batalha. Tenho em minha
casa uma arca onde poderão guardar, em segurança,
os documentos.
- Obrigado camarada, você tem sido incansável na
causa popular, - disse o Titó
lavado em lágrimas.
- Eu pelo partido até dou a minha vida, - exclamou, esfregando
as mãos.
Na Leitaria mais famosa da vila um novo residente apresentava-se
à sociedade dos dois lados, com os olhos brilhantes.
- Eu sou o Alice, uma imitação
do Cooper, e acabei de ser corrido de Angola pelos pretos. Trago
novos ares para a vila, - e mostrou umas ervinhas. – Chamam-se
“charros” e dão cá uma pedrada.
- Pedrada?!! Eu não quero violência no meu estabelecimento,
- avisou o proprietário apontando para a tabuleta que tinha
escrito “Lugar de Coexistência Pacífica”, que estava
junto a outra que dizia, “Não se fia nem a Comunistas,
nem a Fascistas”.
- Calma meu, “pedradas” sim, mas tudo numa onda boa! – Esclareceu
a imitação do Cooper.
- Vêm para aqui estes retornados com linguagem de pretos!
– Resmungou um Fascista, que foi de imediato apoiado por um Comunista.
A concentração ética e poética do
que de mais fecundo havia em Paço de Arcos tinha um nome,
Fernindó.
- A obra dele representa a cruzada da liberdade contra os tiranos,
– disse o Pierre Pomme-de-Terre apontando o dedo para Sul, recebendo
a concordância do Craveiro Lopes.
– Venho aqui oferecer a V. Exa. os meus préstimos para
uma “Pausa Cultural”.
- “Pausa Cultural”?!!
- O Norte e o Sul unidos pelo Fernindó. Se mantiverem a
guerra os 500 poemas poderão desaparecer para sempre e
ambos serão os responsáveis perante o povo.
A mensagem tinha passado, já se falava numa “Trégua
Cultural” e um Capitão oferecera
o seu andar para uma “Casa Fernindó”, onde se iria falar
de poesia, literatura e exibir filmes da guerra colonial em Cabinda
a adolescentes, uma imposição do militar.
- A minha guerra aos tenrinhos também é cultura,
– explicou com uma voz de macho aos representantes das duas partes
em confronto, que se tinham reunido na Leitaria.
- Os papéis poderão assim ser consultados e cheirados
por todos, – disse o Ánhuca,
mostrando os buracos que antes do 25 de Abril tinham estado ocupados
por dentes.
- Vamos organizar uma mesa redonda, e o Escoto
irá gamar uma das câmaras da RTP ao pai e transmitir
a cessão para toda a vila, através da antena do
Vasquinho, com a ajuda móvel
do Jorge Monhé na sua acelera
e do Zé Maria Pincel na Hércules,
– interrompeu animado o Titó.
- Mas onde é que vamos arranjar uma mesa redonda? – Perguntou
o João da Quinta, pondo o
dedo no ar.
- Com a Revolução todas as mesas fascistas, que
eram quadradas, passaram a ser denominadas redondas, – respondeu-lhe,
irritado, o representante do Sul.
- Olhe que não, olhe que não! “Mesa Redonda” é
um conceito marxista que nós repudiamos, – disse de rajada
o embaixador do Norte.
- Eu proponho um projecto para a criação de uma
“Revista Comum”em que uma metade é reservada ao Sul e a
outra ao Norte. O nome será “Pica Hic”, – interveio o Capitão,
pondo água na fervura.
- “Pica Hic”?!! Mas que nome tão pouco revolucionário,
- interrompeu o Titó.
- Eu direi que é um nome apaneleirado, – exclamou o Ánhuca.
- Falaremos disso na “Mesa Triangular” que será realizada
na sede velha do Clube Desportivo de Paço de Arcos, – informou
o militar abandonando, um pouco irritado, a reunião.
O Comandante Guélas recebeu
a notícia com agrado, pois iriam encher o território
inimigo com dezenas de combatentes, tudo à conta da “Mesa
Triangular” do génio militar que tinha vindo de Cabinda.
O senhor Bakaus foi contactado para
animar o evento e os convites entregues ao carteiro mais famoso
da vila, o Kurtis, que se responsabilizou
pela sua distribuição. E foi numa dessas ocasiões
que deu de caras, já ao anoitecer com o
Zé de Porto Salvo e o seu grupo de escuteiros.
Episódio
9
A Mesa Triangular
A câmara
de filmar que o Escoto tinha nacionalizado
ao pai, já só apresentava um “P” de “RTP”.
- “P” de proletariado, tudo agora é do povo, – explicava
aos presentes.
O alcance da transmissão chegava aos dois símbolos
de poder da Vila de Paço de Arcos: o Depósito de
Água no Alto da Loba, no Norte, e ao Coreto da Avenida,
no Sul. Foram convidadas as personagens mais relevantes de todo
o concelho, incluindo o Zé de Porto
Salvo e o seu grupo de escuteiros, que tinham violado o
Curtis na noite anterior, a pedido deste. No Centro Comercial
“Áries”, único em toda a Costa do Estoril, no espaço
junto ao café-restaurante do Senhor Xantola,
o Capitão tinha inaugurado
uma exposição cujo tema “Os Lugares de Fernindó”
convidavam o visitante a deixar-se guiar por uma colecção
de fotografias, cedida pelo senhor Saul,
o mais idoso “paçoarquiano”, que tinha participado na célebre
“Guerra de Limões” entre Algés e a Trafaria. As
imagens construíam cronologicamente todos os sítios
por onde o poeta tinha defecado, as barracas onde vivera, os sacos
de cimento que gamara em parceria com o guarda-nocturno. O poeta
chegara a Paço de Arcos nos anos 20, após uma bebedeira
monumental que apanhara no Cacém, e lhe derretera os neurónios
de orientação, deixando-lhe uma “branca” em relação
ao caminho de regresso. E a cultura da vila fizera o resto! Para
os adolescentes pouco inclinados para estas manifestações
intelectuais, o Capitão tinha posto à disposição
o seu apartamento, onde prometia filmes de acção
sobre Cabinda, pipocas e uma cama para os mais atrevidos.
Às 21 horas do dia 25 de Setembro de 1975, o senhor de
nome Escoto carregou no botão da máquina e deu início
ao primeiro encontro televisivo entre o Norte e o Sul. Meia-hora
antes tinha havido um pequeno incidente entre dois dos presentes,
um apoiante do Comité Central, o Titó,
e outro um devoto do Guélanismo, o Todo
Boneco.
- Agarrem-me, senão eu mato-o, – ameaçou o vendedor
de jornais do “Avante”.
- Espera aí que já cospes, – respondeu-lhe o conquistador
de bairro.
À medida que os convidados iam passando pelo tapete vermelho,
vendido pelo Pieerre Pomme-de-Terre
a preço de saldo, e gamado na sede dos escuteiros, as carpideiras
da praça, alugadas pelo João
Gordo, estavam num frenesi. O moderador chamava-se Maria,
nome pomposo com figura de xungoso. E era menina.
- Acção, - gritou o Escoto, fazendo sinal com a
mão.
- Boa-noite senhores telespectadores, – disse a xungosa com uma
voz de bagaço, mostrando à vila a falta de dentes.
– Estamos aqui a fazer jornalismo de excelência, os ventos
da liberdade trouxeram o futuro a Paço de Arcos, hoje vamos
falar de cultura, do nosso conterrâneo, do nosso poeta Fernindó.
Todos têm os seus poetas, nós temos o Fernindó.
- O Fernindó é do povo, – gritou o Titó aproximando-se
do microfone da Maria.
- Isso são acusações graves e o verbo é
rasteiro, – acusou o Ánhuca,
apontando para o adversário e conseguindo palmas de metade
da assistência.
- Cavalgadura!
- Quem, eu? – Perguntou indignada a locutora.
- Não foi para a senhora, mas para aquele fascista do Norte.
- Nem a memória do Fernindó respeitam. A comunistada
está a estilhaçar os cristais e as porcelanas da
vila, que ainda sobram. O poeta é nosso, só nosso,
– disse o Ánhuca, batendo três vezes no peito com
o punho fechado.
- O 25 de Abril deu-lhe a liberdade de delirar em público,
– atirou o Titó, enchendo a cara do seu camarada Balacó
de perdigotos.
- O nosso glorioso Comandante Guélas
há-de chegar até aqui, nem que seja à bomba.
A palavra “bomba” enervava o Sul. O ataque no Cine-Teatro, a dez
metros daquele local, tinha-os traumatizado “olfactivamente” para
sempre. Um simples odor a maresia era o suficiente para os obrigar
a fugir.
O debate foi interrompido bruscamente pelo Marmota,
o irmão do Pinguim e do Pingalim,
que já não iria durar muito, mas não sabia.
- Os fascistas conspurcaram o muro da praia que o Comité
Central reservou para as velhotas da nossa terra se bronzearem.
Escreveram “Cantinho das Putas Velhas”.
- Abaixo o Fascismo, viva a Reforma Agrária, – gritou exaltado
o Titó, pondo-se em pé na mesa.
Mal sabia ele que a câmara de filmar tinha dado o berro
e que o Escoto fingia que estava a transmitir. Não muito
longe dali, o Craveiro Lopes já
tinha aviado dois secos e um molhado na Quitéria
Barbuda, acusando-a de estragar a televisão e de
o impossibilitar de ver o debate. O barulho ensurdecedor das hordas
fanatizadas dos fascistas do Norte entoando o seu hino “É
Motorista”, letra e música do grande Charlot,
envolveu a sala e foi o sinal para mais uma carga de Litopol.
O produto já borbulhava no saco, quando os servos do Comandante
Guélas abandonaram o local e foram fazer uma visita de
cortesia à Mercearia “Aveirense” de Silva & Sousa Lda.,
Rua dos Fornos, nº 17ª/17B e 17 (números em metal)
ou 17/17ª e 18 (números a tinta). Cinco minutos depois
já todos corriam em direcção ao Norte, levando
nos bolsos rebuçados do Doutor Bayard, Sugus, Chocolates
“Sombrinhas”, queques, amendoins, favas fritas, Vinho Rosal, Rebuçados
“Bola de Neve” e pastilhas “Gorila”, e tudo o mais que veio à
rede. A única pista foi dada por uma testemunha anónima
que viu um indivíduo, às três horas e dez
minutos, com um caixote de produtos à cabeça, junto
à linha do comboio. Consta que era o célebre
Focas das Docas!
O assalto do Norte à Mercearia do Povo, de onde tinham
gamado todas as pastilhas “Gorila”, tinha deixado o Sul de rastos
e já havia registo de dissidências. A zona do Jota
Pimenta, junto à Escola Náutica, tinha-se organizado
na “Associação Popular Maria Armanda”, que adoptara
como hino “Eu vi um sapo”, e proclamava agora as virtudes revolucionárias
da sua mártir com cara de sopeira, por todos os cantinhos
do bairro.
- Temos de conter a fúria popular, – avisou o Titó
aos camaradas reunidos de emergência na cave do Coreto.
– Eles andam a mostrar ao povo um adivinho de nome Zé
Preto, que faz prognósticos sobre o futuro, que
é muito negro para o nosso lado.
- Esse bruxo é um impostor do Norte, camarada, – interrompeu
o Balacó. – Anda para aí a dizer que um tal de Aníbal,
que anda a cavar batatas no Algarve, irá ser Presidente
da República.
Mas o caso era grave, muito grave, porque senão a Dona
Maria das Bicicletas não tinha
aparecido de rompante no Coreto, ficando encravada na porta. Bastou
o busto para intimidar os camaradas.
- Sabem onde fica a Sibéria? É para lá que
vão senão meterem o povo em ordem.
O talento tribunício do Ánhuca ecoou por todo o
Norte, mostrando o seu talento e agilidade, e a energia invencível
do mito.
- O povo do Sul “está desordenado e é fraldiqueiro”.
O do Norte ruma à vitória. O nosso lema é
“ética de trabalho, secura de verbo e abundância
de lágrimas”. “A vida é rápida, desavinda
e selvagem”, gritava, ao mesmo tempo que ia soletrando os números
39, 69 e 74 das Pastilhas “Gorila”, colecção “Frases
Célebres”.
Era uma reacção inconsciente às mudanças
que se verificavam na sociedade no que se referia aos costumes
sexuais, com a emancipação das ovelhas. O Titó
gritava que a Lanzuda era do povo e prometia vir um dia tirá-la
das mãos dos fascistas. Estes discursos inflamados com
promessas de sociedades opostas denunciavam a cisão profunda
que a Revolução dos Cravos tinha feito neste cantinho
da Costa do Estoril. Foi tudo isto que levou o Capitão
Porão a abrir um apartamento de psicanálise
para adolescentes, tentando com isto minorar os estragos causados
por um acontecimento imprevisto. Ele tentava manter os pequenos
imberbes longe deste conflito entre a superstição
e a crendice do Norte, onde os valores e os seus instrumentos
de poder não podiam ser postos em causa, e a “cientologia”
e a fé do Sul, que proibia proibir.
Episódio
10
A
Caixa do Alice
A transacção
comercial foi rápida, o senhor Alice
acabara de vender um charro à Maria,
a locutora da “Mesa Triangular”. Desde que tinha aparecido na
televisão julgava-se uma artista de renome, como a mãe,
e por isso marcara para a tarde um comício na parte de
cima do Coreto. Os cartazes feitos de cartolina comprada na “Dáni”,
ostentavam letras pretas escritas a ponta-de-filtro, gamadas ao
Professor Coelho, que a anunciavam
como a “Passa-visionária”, que a extrema-esquerda transformou
em “Passionária”, porque dizia ter visões de cada
vez que dava umas passas, ficando nessas alturas com outro tipo
de inteligência. O seu mandatário era um peso pesado
da política, o Pedro da Avozinha.
Mas havia concorrência. O senhor Tubarão,
também cliente assíduo do Alice, apresentara-se
na linha de partida para a conquista do cargo mais cobiçado
da vila e das redondezas: Governador do Chalé da Merda,
o edifício para onde confluíam todos os dejectos
dos “paçoarquianos”. O nome do mandatário cilindrava
os outros, Pórki, cujo currículo
ostentava o noivado com uma sobrinha preta do Sá Carneiro,
que nascera em Trajouce a sonhar com Cascais. Vindo de Caxias
apresentou-se no “Manuel da Leitaria” o senhor Alpedrinha,
um coleccionador obsessivo de caderninhos onde anotava os superlativos
dos adversários. Ao senhor com cara de porco disse ser
um excelente detector de mentiras, mas o Pórki
iria ser apenas um condimento escasso, pudico e enganador, de
uma candidatura que se perderia em combates exaltados. Os charros
do Alice tinham aberto a caixa com o seu nome. Entretanto apareceu
mais um concorrente, o Pingalim,
que não queria ficar para trás e após um
dos maravilhosos cigarrinhos disse ser a reencarnação
do Fernindó, despejando sobre
os presentes um discurso que revelava um amargo dilema ontológico
de adolescente, trazendo como mandatário o senhor Cocciolo,
que foi ainda menos convincente que o candidato: prometia restaurar
todas as aceleras da vila e oferecê-las aos deficientes
mentais. Formou-se uma fila interminável de potenciais
ganhadores, que teve de ser rapidamente desmobilizada pela autoridade
máxima da região, o Chefe
Bigodes. Na vila avultavam agora agitadores caxienses,
guerrilheiros de Trajouce, recentes marxistas de Porto Salvo,
nacionalistas oeirenses, militares de Algés, queques da
linha e raparigas de bigode a fumar Definitivos. A época
era única e tudo graças ao 25 de Abril de 1974.
Num dia uma mesma pessoa podia ser cúmplice ao acordar,
vítima ao almoço e adormecer carrasco. E graças
à descolonização que tinha corrido com o
inescrupuloso Alice, e as suas ervinhas mágicas, de Angola,
a gloriosa vila de Paço de Arcos encontrava-se agora num
estado arrebatador de exaltação febril e desconhecida.
A morte, as pulsões e as paixões mais recônditas
estavam a invadir Paço de Arcos, neste “Ano da Glória
de Nosso Senhor de Mil Novecentos e Setenta e Cinco”. A vila estava
confusa, fragmentada e caótica. A epidemia viral dos Capitães
de Abril representava a necessidade de um castigo divino e da
possibilidade de uma contaminação vermelha. E na
Serra do Maestro Guélas estava a cura, a chave da felicidade
eterna que prometia abrir as memórias das existências
passadas, guardadas num nicho especial por gente escolhida a dedo:
Ánhuca, Manelinho
do Estrume, Craveiro Lopes
e Quitéria Barbuda. Os do
Sul tinham medos inatos e recalcados no mais íntimo de
si, e era por isso que reclamavam a igualdade para todos os Paçoarquianos.
. Eles eram um bom retrato psicológico do estado de espírito
e mesmo da saúde mental desta comunidade de Paço
de Arcos.
Episódio
11
A Última
Exposição do Século
Com o
aparecimento dum Pub no Centro Comercial “Áries” em frente
à estação da CP e a vinda do jovem Capitão
da 5ª Divisão, que fora um rapazinho flor de estufa,
apaparicado e reprimido, que estudou num colégio de freirinhas
espanholas, veio o termo “randevu”, que recauchutou os termos
do Antigo Regime, “meretrício” e “proxenetismo” de Puta
para Senhora Puta. O Centro Cultural de Paço de Arcos reagiu
de imediato com a exposição “Grandes Paçoarquianos”,
uma parceria Norte/Sul em defesa da razão e dos bons costumes.
As portas abriram-se no dia 11 de Setembro de 1975.
Ao entrar no “Chalé da Merda”
o visitante apercebia-se de um ambiente condizente. Ao longo das
oito salas desenhavam-se os perfis dos génios da terra,
com as suas obsessões e angústias, glórias
e dificuldades coevas e póstumas. O primeiro a aparecer
era o esqueleto do Fernindó
brigão e o seu cão ensimesmado, o Cardoso, transformado
em tapete desde o dia 25 de Abril de 1974, quando o João
da Quinta apareceu na rua, para impressionar a Isaltina,
montado numa Chaimite. Na sala ao lado estava o Chico
Americano e a sua famosa bicicleta que ostentava uma bandeira
vermelha, que representava a capacidade de sobreviver a todas
as reviravoltas revolucionárias. O Centro Cultural estabelecia
bem o elo entre a produção artística e o
contexto histórico, factores importantes para enquadrar
a vila. Na sala número três, da responsabilidade
do Norte, estavam dois bonecos de cera que representavam o casal
mais mediático da vila, do antes e do depois da Revolução
dos Cravos: Craveiro Lopes e a sua
Formosíssima e dulcíssima Quitéria
Barbuda, na cena mais marcante do seu casamento, uma oferta
da Paróquia após uma sugestão do acólito
Xinoca, o único chinês
da vila, em que o marido tentava acertar com uma cadeira nos cornos
da mulher, depois de ter prometido amá-la e respeitá-la,
como o tinha feito durante quarenta anos de vida em comum na barraca
da Terrugem. O contexto estético era dado por uma pirotecnia
sonora sob a forma de sombras chinesas a levantarem as pernas.
Logo de seguida o visitante era confrontado com um Titó
em barro, na sala reservada ao Sul, vendendo os seus famosos “Avante”,
tendo por fundo uma grande fotografia da estação
de Paço de Arcos, onde aparecia a um canto o estudante
Focas a arrear um dos seus famosos
cagalhões. Na sala cinco a figura imponente do siderante
Capitão de Abril, o Porão,
feita em cartolina pela Escola de Vela do Clube Desportivo de
Paço de Arcos, uma forma de agradecimento pelos incontáveis
lanchinhos com que ele presenteou os velejadores masculinos da
classe “Optimiste” durante os largos meses de agitação,
tendo ao pescoço uma réplica dos binóculos
com que se deliciava a ver o Chico Sá
de cuecas lá para os lados do Jota Pimenta, gamados pelo
Tonico para ir comprar uns charros
ao Alice. Vivia-se nesta altura o
auge da epidemia, com diferentes camadas de adolescentes tentadores.
A sala seguinte era a mais espaçosa do Centro, e representava
a glória nacional, através do bombeiro Álhi
esculpido num barrote com cimento, dentro de uma gruta, desdenhando
o “fogo que ardia sem se ver” (Fernindó), com um ar negligée,
lutando titanicamente para salvar uma bilha de gás. O resto
da acção era contada numa parede ao lado, grafitada
pelo Focas a castanho. O Álhi usava a astúcia para
não causar o pânico, quase fizera em farrapos o seu
blusão que ostentava orgulhosamente “Bombeiros Voluntários
de Paço de Arcos”, tendo conseguido aguentar a indiferença
dos colegas. Gritou com truculência, lirismo e imaginação
contra o “fogo que ardia sem se ver” (Fernindó) mas já
lhe consumia as cuecas. Mas por fim chegou à bilha e ao
mesmo tempo que a arremessava do sétimo andar contra a
multidão, deu o famoso “berro do Ipiranga”:
- Cuidado com as cabeças!
Na sala sete um alemão feito de sabão “Macaco”,
com uma peixeira sentada no seu colo, sendo idolatrada na sua
beleza, mostrando que por detrás da Tita
dos Pés Sujos estava sempre o Bajoulo,
convidava o visitante a uma pausa fresquinha, com o patrocínio
exclusivo do restaurante “O Tino”. Quem se sentasse à sua
mesa tinha direito a uma imperial, ao mesmo tempo que puxava um
cordelinho para ouvir as palavras do sábio:
- Sou uma esponja que se impregna e depois expulsa.
E finalmente na sala número oito aparecia a figura do fora-da-lei
e falsificador, o ser humano mais complexo da vila, o marquês
Pierre-Pomme-de-Terre, vestido com
um elegante fato de sapateiro viúvo, com um soberbo relógio
de bolso da marca “Roskof”, despedia-se dos visitantes e agradecia-lhes
o tempo de aprendizagem e sabedoria que tinham dispensado à
cultura da vila:
“ O que me agrada e me inspira na vida, torna-se um objectivo
para mim. A figura de Fernindó sempre me perseguiu. Vejo-o
como um poeta, um louco, um profeta, um mistério indecifrável.
E no entanto ele considerava-se um trapezista” (últimas
palavras antes de se pirar para o Brasil com a Interpol atrás).
Nesta última Exposição do Século da
Cultura Paçoarquiana, realizada no ano de 1975, a encenação
das oito maravilhosas salas do Chalé da Merda teve como
tema o “Eterno Retorno”, que distinguiu o trigo do joio e afirmou
o óbvio, ou seja, que a obra do Comandante Guélas
pouco ou nada tinha a ver com o espírito do tempo. A vila,
principalmente a zona Sul (abaixo da linha do comboio) estava
mergulhada num “cocktail” estético composto de miúdas
com bigode, adolescentes de boinas vermelhas, crianças
que se aliviavam para os cartazes da “Maioria Silenciosa”, candidatos
descartáveis e principalmente recicláveis, para
satisfação do Comité Central, que descaracterizavam
o espírito de uma região que um dia aclamara o seu
herói Patrão Lopes,
nome mais tarde dado pelo poeta Charlot
ao seu inigualável rafeiro, que teve o seu eterno repouso
aos pés da estátua da Avenida. O conteúdo
das salas deste Centro Cultural “levou os jovens arautos da época
a imaginárias leituras políticas, feitas por pseudo-moralistas
de pacotilha, de braço dado com apóstolos despersonalizados
com uma consciência primitiva” ( in “Cronista após
um charro”, Ratinho Blanco, Edições
Alice). Foi a representação simbólica de
um estado avançado de composição cultural,
que estava ameaçado pelo colapso de um estilo de vida e
de ordem política que o Norte rejeitava.
- Prefiguro um apocalipse iminente, – disse o Comandante
Guélas na véspera do Dia D, o desembarque
dos aliados na Praia Velha.
- Nunca tão poucos irão dever tanto a muitos, –
profetizou o Craveiro Lopes ao entrar, na praia de Caxias, na
chata com o nome “Rissól”.
Episódio
12
O Electricista
Quando o assunto dizia
respeito à imagem da vila de Paço de Arcos as diferenças
entre o Norte e o Sul desapareciam e ambos uniam esforços
pela terra. Em 1975 os filmes indianos esgotavam o Cine-Teatro,
o Marreco da Projecção
não tinha mãos a medir, e no fim de cada sessão
meia sala estava a chorar e a outra a disfarçar o ímpeto
para fazer o mesmo. Foi nessa altura que se deu a conhecer o senhor
Ginja, o mais imaginativo agente
cultural de todos os tempos, que se apresentou no Chalé
da Merda com o argumento para um filme indiano com um monhé
paçoarquiano, o Jorge. Para título propunha “O Electricista”,
concorrência directa com “O Mecânico”, de Charles
Bronson. Prometia uma catadupa de imagens gráficas, muitas
caleidoscópicas. O director do espaço cultural na
altura era o Carlos Anão dos Suspensórios,
que acumulava com o de Presidente do Futebol Clube de Paço
de Arcos, uma instituição milenar com dois campos
de matrecos e um espaço que acumulava Sala da Presidência
e WC. De cada vez que um sócio desejava vazar águas,
o anãozinho tinha que sair. As filmagens do “Electricista”
com o Jorge Monhé no principal
papel iniciaram-se sob um sol abrasador nas Fontainhas, o local
mais in da vila, onde a maioria da população pós-25
de Abril fora concebida. A história passava-se em 1917
com a partida da Segunda Divisão do Corpo Expedicionário
Português para a Flandres, da Praia Velha outrora a exclusiva
do rei. Nele iam em representação da vila os cabos
Jorge Monhé, o galã e Zé
Maria Pincel, que ia para a guerra por ter uma dívida
para com o mecânico Cabrita.
A comandar este temível destacamento ia o Tenente Bajoulo.
O herói desta longa metragem depressa se revelou um homem
do futuro, pois foi para o campo de batalha com todos os seus
acessórios: pilhas, busca-pólos, lâmpadas
para lanternas e um transístor. Como realizador o Ginja
mostrou ser único, tendo alterado a história, pois
a vila necessitava urgentemente de heróis. Três paçoarquianos
que incluíam um electricista de nome Jorge Monhé
puseram em debandada os 55 mil homens das oito divisões
do 6º Exército Alemão, na batalha de La Lys,
no dia 25 de Abril de 1918. A cena que mais marcou a geração
paçoarquiana dos pós – Revolução dos
Cravos foi quando o cabo Zé Maria Pincel acertou na cabeça
do general alemão Ferdinand Von Quast com um martelo, depois
de se ter irritado com a sua Zundapp que não queria pegar.
O general inimigo ficou a cagar fininho atrás de uma trincheira,
cena considerada de sexo explícito, mesmo naquele tempo
de todas as liberdades, e como tal censurada, tanto pelo Norte
como pelo Sul. Quanto ao Tenente Bajoulo, que falava alemão,
conseguiu apanhar o responsável pela ofensiva adversária,
o Erich Ludendorff, e ameaçou meter-lhe pela boca abaixo
um par de meias do Ánhuca,
trazidas expressamente da sua pátria bem amada, se ele
não mandasse retirar as suas tropas. Isto provocou um grande
desânimo nos alemães, proporcional ao caso do “mapa
cor-de-rosa” com os portugueses, levando a insubordinações,
deserções e suicídios. De notar que o 11º
Corpo Britânico já tinha fugido uns dias antes. O
filme acaba em apoteose com os três heróis numa colina,
todos a tentar pegar, de empurrão, a Zundapp do Zé
Maria Pincel para poderem regressar à pátria. A
câmara dá uma volta de 360 graus. Para que o feito
destes homens ficasse para sempre enraizado na memória
das novas gerações, e fizesse efeito lá para
o ano de 2008. Mas, infelizmente, as ervas do Alice
é que nunca mais foram esquecidas. Durante alguns anos
o mimetismo entre as personagens e os espectadores podia ser visto
no fim das sessões e já fora do cinema, com a garotada
a divertir-se em lutas simuladas de Kung-Fu, misturadas com cavalinhos
em “peidociclos”, numa disputa entre “Fameis”, “Zundapps” e “Casal
Boss” do Sul, e as “Yamahas”, “Suzukys” e “Hondas” do Norte. Com
o fim da fita abriraram-se novamente as hostilidades entre aqueles
que queriam o poder absoluto da vila, e cada um ocupou o seu lugar
na rua. A separar as duas claques estava o Alice que tinha clientes
em todos os sectores do pensamento, e prometia que as suas ervinhas
era para “animar a malta”. Junto à sede velha do Clube
Desportivo de Paço de Arcos o senhor Charlot
saltou para cima do mini branco do Capitão
e entoou o hino do Norte, o “É Motorista”, acompanhado
por dúzias de fanáticos do Comandante
Guélas. O aparato policial junto à nova loja
de desporto desviou as atenções políticas
de todos os manifestantes e obrigou o Titó,
que se preparava para contra-atacar com “Eu vi um sapo”, hino
do Sul, a correr para o local. Tudo o que fugisse à rotina
poderia ser uma oportunidade política.
- Os fascistas atacaram e saquearam uma loja, – gritou dando início
ao boato. – Mas estão encurralados lá dentro pelo
povo. Abaixo a reacção.
- Abaixo a reacção, – disse em coro parte da populaça.
- Foi nisto que deu a revolução, acabou a segurança,
- disse uma voz saída de um megafone. – Só o Comandante
Guélas é que vos dará a segurança.
Dentro da loja estão terroristas social-fascistas.
Ao comando das operações estava o Chefe
Bigodes que tinha cercado o local e obrigado os larápios
a permanecer no interior do espaço comercial. Quando viu
que no meio da multidão estava o seu inimigo juramentado,
o Mac Macléu Ferreira, estremeceu
e pôs a mão na pistola.
- Calma, calma, Cabeça-de-Giz, – disse para si próprio.
– Agora não é a altura de confrontos. A tua missão
é deter os bandidos que estão dentro da loja e não
multar o caixa-de-óculos loirinho.
A situação estava a descontrolar-se. Cada vez ia
chegando mais populaça e o espaço estava a ficar
curto. Uns acusavam os ladrões de fascistas, outros de
comunistas. Ora se ouvia a palavra MIRNE, ora as palavras Brigadas
Vermelhas. Quando a cena parecia estar a descambar para a violência,
o Chefe Bigodes lançou um ultimato aos ocupantes:
- Ou se rendem, ou atiro para aí umas cuecas do Bajoulo
e umas meias do Ánhuca. Têm cinco minutos para se
entregarem.
Nem um segundo foi preciso. As portas abriram-se com estrondo
e saíram de lá o mano do Janeca
(do Norte), o Pingalim (do Sul),
o Tubarão (do Norte) e o Grilo
(do Sul), cada um com um par de ténis do lado direito em
ambos os pés, outra coisa não seria de esperar de
um mostruário de uma loja de desporto.
Episódio
13
O
Desejado
O Focas sempre esteve ligado à
rua e foi aí que se revelou a sua criação
gráfica. Uma dor de barriga súbita obrigou-o a agachar-se
junto a um muro acabado de caiar e a inspiração
veio-lhe sob a forma de um relâmpago. Agarrou na ponta de
filtro preta que tinha no bolso e desenhou a figura mais portuguesa
de todos os tempos, um “malho das Caldas”, que na vila de Paço
de Arcos era enfeitado com penugem nas rodas. E como o produto
estava a demorar tempo a sair, devido ao tamanho descomunal, daí
as cólicas, escreveu em cima “Viva o Comandante Guélas”.
Foi o início de uma guerra sem escrúpulos, em que
se pretendia ser melhor do que os outros, estar em mais sítios,
fazer graffitis maiores e mais bem feitos.
“A terra a quem a trabalha, mortos para fora dos cemitérios”,
escreveu o Balacó a carvão
na parede da estação, enquanto esperava pelo “verde”
que vinha do Cais do Sodré com os jornais do “Avante”.
“Lagostas para a Sibéria já”, disse o João
da Quinta na parede do restaurante “Os Arcos”, mostrando
que estava um pouco confuso em termos políticos.
O jovem e turbulento regime republicano do pós-25 de Abril
de 1974 evoluía no teatro político português
e “paçoarquiano”. Na praia da vila estava agora estacionado
um autocarro de dois andares que dava apoio às meninas
finas do Jota Pimenta e seus amigos, principalmente marujos da
Direcção de Faróis que andavam em roda-viva
, pois o comandante dormia a noite toda e proibia-os de o acordarem,
mesmo que “houvesse uma nova revolução”. A guarda
era feita no autocarro com a pistola sempre à mão.
E foi numa manhã de nevoeiro que tudo se precipitou. Mas
recuemos no tempo. O Charlot tinha
resolvido ir acampar, à semelhança dos amigos no
Algarve, e foi até onde as posses o permitiram, ou seja,
a praia de Paço de Arcos. Levou dois cobertores, um para
fazer de tenda e outro de cama, onde se deitou também o
Lopes para lhe aquecer os pés. Pelo caminho resolveu
ir a Vila Fria visitar a mãe e primeiro deu de caras com
a vizinha, a Piedade, cujo corpo já não lhe dava
lucro, mas sim prejuízo. Cumprimentou-a apalpando-lhe as
mamas, mostrando que a meteorologia da sua alma era tão
instável como o clima. Foi o descalabro. Choveram paus,
pedras e tudo o que viesse à mão, incluindo um frango,
obrigando o senhor Charlot a uma retirada estratégica,
que só parou junto à tenda, ainda a tempo de ver
o Sol a pôr-se. E estava tão cansado que nem acabou
a lata de sardinhas em tomate, tendo caído em sono profundo.
Foi acordado abruptamente a meio da noite por um estrondo seco
e uma luz vermelha intensa. Espreitou e viu quatro vultos no areal,
um deles metade de todos os outros, que reconheceu como sendo
o Trovão, enquanto que da
sua direita aproximava-se do grupo um desconhecido em passo acelerado
e com uma pistola na mão.
Noutro canto da vila realizava-se o Campeonato Norte / Sul de
ping-pong, mais propriamente na sede do Futebol Clube de Paço
de Arcos. Os dois matraquilhos carunchosos tinham sido transformados
em soberbos campos da modalidade escolhida para o dérbi
político, depois de lhes terem colocado em cima várias
madeiras desviadas pelo Todo-Boneco
da obra para onde costumava levar as moças que serviam
nos chalés da burguesia. A fazer de rede estavam pedaços
retirados de uma arte de pesca da Praia Velha. O Norte tinha trazido
uma equipa de peso que ameaçava lançar um “vómito
ácido em estado puro” e o Sul prometia esmagar “os fascistas”.
Apresentou-se vindo directamente do Grupo Coral Vermelho da Porcalhota
o Cara-de-Cavalo, que prometia estar atento às “manhas
da reacção”. Todos foram revistados à entrada,
os sacos de plástico da “Casa do Adro” ficaram na rua,
para evitar o terrível “Litopol”. O futuro anfetaminado
Janeca prometia “mão pesada
para os patetas dos vermelhucos”. Era uma época em que
ainda se acreditava ser possível inverter o caminho da
vila, que se estava a converter num sítio muito complicado.
No lado esquerdo da mesa número um estavam os sociólogos
internacionalistas e do lado direito da mesa número dois
os sociólogos moralistas. Pelas ruas do país o exército
desconjuntado e desmoralizado era o que esta gente precisava.
A um canto da sala um casal digladiava-se por amor, agrediam-se
de cada vez que o macho dava um gole na cerveja. Ele era o Bajoulo,
um ser que desejava misturas, que vivia em contradição,
repartido entre as suas loirinhas e a amada Tita
dos Pés Sujos, sendo um dissidente de si mesmo,
sem paz interior manifesta. A namorada acusava a cevada como a
principal responsável pela falência do corpo do seu
príncipe.
- Eles foram criados em territórios insólitos e
banais, – gritou o Titó, mostrando
que as palavras eram sempre as mesmas, mas o estado de alma nem
sempre. – Os fascistas não sabem jogar ping-pong.
- Nós prometemos um “Novo Paçoarquiano”, – gritou
o jogador loirinho que vivia no Sul, mas desejava ardentemente
o regime do Norte, tirando do bolso duas bolas cor-de-laranja
com que pretendia iniciar a partida contra o Balacó.
Fez-se um silêncio ensurdecedor, que foi quebrado minutos
depois pelos gritos ensandecidos de um Titó à beira
de um ataque de nervos.
- Bolas fascistas do PPD, eles nem as regras democráticas
respeitam.
O puto loirinho tentou explicar que o pai as tinha trazido de
Espanha mas foi em vão. Voaram as mesas, o presidente
anão com suspensórios refugiou-se na sala
a ele destinada, que estava ocupada pelo Todo-Boneco e por uma
das suas fabulosas sopeiras, exploradas pelos burgueses do Norte,
e devido à confusão foi lançada uma carga
dupla de “Litopol”. A partir daí o nome de guerra do jogador
de ping-pong da selecção do Alto de Paço
de Arcos passou a ser Laranja e a
acompanhar para sempre no coro o grande trovador Charlot, até
que a morte os separasse.
Quando o marujo, que estava de plantão na Direcção
de Faróis, viu a luz vermelha de SOS lançada pelo
Trovão, o adolescente mais pequeno da vila, levantou-se
de imediato da mesa, atirando com as cervejas para o chão,
e abandonou o autocarro-bar, ao mesmo tempo que puxava da pistola
de guerra.
- Mãos ao ar, quem se mexer morre, – gritou quando estava
a cinco metros do grupo.
- Mas quem é o senhor? – Perguntou o Carlos
Pontas atirando a beata para os pés do intruso.
- Sou a autoridade marítima desta zona e presenciei o lançamento
de um artefacto proibido por lei.
- Mas nós não lançámos nada, – explicou
o pequeno polegar, mostrando as mãos, sendo secundado pelos
amigos.
- Foram vocês, eu vi, – insistiu o militar, cambaleando.
Quando tudo já parecia estar resolvido, eis que chega o
Chico Sá acompanhado do Peidão,
vindos directamente das Fontainhas:
- Não vimos nenhumas ratas, - explicou o primeiro, abanando
a espingarda de porção-de-ar “Diana 38”.
- Alto e pára o baile, mãos no ar ou eu metralho,
– gritou de novo o marujo, cambaleando mais uma vez. – Foi com
essa arma que vocês atiraram os projécteis e por
isso vão ser detidos no meu quartel.
- Mas os projecteis não cabem no cano, – tentou explicar
o Peidão.
- Isso é irrelevante, em frente marche, – ordenou o marujo
apontando o pistolão.
O Titó tinha por lema que delitos típicos da “decadência
capitalista” nunca ocorreriam nos territórios do Sul. Devido
a isso as mulheres apresentavam enormes bigodes e descomunais
sovacões, desde que o Comité Central declarara a
depilação como um acto burguês. Assim, este
chefe máximo do poder de Paço de Arcos de Baixo
exigiu que no torneio usassem raquetes de madeira e que o sorteio
fosse feito pelo Anão-de-Suspensórios, o Presidente
do Futebol Clube da vila, autoridade máxima daquele espaço
desportivo, uma amostra de homem cuja sabedoria era feita de curiosidade
e cultura, adquiridas quando ia a cavalo da mota do pai, dentro
da caixa da fruta. Quem falava com ele aprendia e descobria que
tinha como profissão cuidar dos seus fantasmas. Foi buscar
a caixa de charutos onde tinha guardado o dinheiro das quotas
e reparou que estava vazia e que o cobrador corou de imediato.
- O dinheiro está num sítio seguro, – justificou-se
o Pierre Pomme-de-Terre. – Com este
tipo de gente nunca se sabe o que poderia acontecer.
Quando o Sol se preparava para nascer, o turista de nome Charlot
teve necessidade de evacuar e escolheu a beira-mar. A praia estava
vazia e o nevoeiro que a cobria era uma boa camuflagem. Abriu
uma cova e agachou-se. Quanto ao Lopes, sentou-se junto ao dono
e ficou a observar as gaivotas. Nesse momento os prisioneiros
tinham acabado de ser soltos, e o marujo iniciava a sua ronda
com os binóculos. Parecia ter um ódio por si mesmo,
porque só ele aceitava ter como comandante um militar que
passava a vida a dormir e proibia que o acordassem. De cada vez
que surgia uma ameaça ao quartel, tinha de ser ele a resolvê-la,
e por isso o espaço para os copos era mínimo, mesmo
nestes tempos de revolução em que a palavra era
farta, mas de pouca valia. Quando a figura do Charlot e do Lopes
apareceu, envolta em nevoeiro e aumentada pela luz da madrugada
e pelos vapores do álcool, veio-lhe à memória
a história do rei português que tinha desaparecido
lá para os lados de África, deu corda aos sapatos,
abandonando para sempre a “carreira marítima para o Seixal”.
Episódio
14
A Invencível
Armada
-
Nunca tão poucos irão dever tanto a muitos, – profetizou
o Craveiro Lopes ao entrar, na praia
de Caxias, na chata com o nome “Torpedo”, propriedade do patriota
“paçoarquiano” Horta, posta
à disposição das forças do Norte.
Sentou-se na proa e contemplou o sumptuoso cenário que
lhe provocou de imediato uma sensação de absorção,
que mostrava que não era indiferente ao local. O balançar
do iate nas ondas fazia um som e ruído, ruído e
música, música e voz, voz e “É
Motorista”, o hino da liberdade, sinal divino da eminente
vitória dos Aliados, que iria reforçar a carga sexual
do Comandante Guélas. O agora
Almirante Craveiro Lopes encontrava-se numa espécie de
transe, pensando nos deserdados e explorados que iria salvar da
obsessão social pelo culto do corpo, que os inimigos tinham
imposto ao seu povo. Após aquela estranha revolução
do mês de Abril, a beleza da mulher passara para um banho
mensal, os pêlos andavam em roda livre, descuidavam-se durante
o acto sexual e tinham ordens do Comité Central para irem
até aos dez camaradas na mesma sessão. A sua armada
iria desafiar os deuses vermelhos para com isso trazer o saber
à vila. Foi acordado pela saída intempestiva do
ar pelo pipo do Repimpa que estavam a encher.
- Almirante, temos um problema, - informou o Piloto Olho
Vivo aproximando-se do “Torpedo”.
- O que é que se passa?
- O Repimpa que comprámos nos Armazéns “Grandella”
tem um pipo marado.
- A armada parte dentro de meia hora e o “Carapau
Cocciolo” faz parte dela. Desenrasquem-se! – Gritou o “Almirante
Sem Medo”, como se auto-intitulou, mostrando que os muitos “penaltys”
no "Papagaio" lhe tinham
criado “músculo no estômago”, tão útil
para situações como esta.
Caiu de novo nos pensamentos nostálgicos do passado e reviu-se
à “chinchada” na Quinta do Leacoke, com o seu colega e
amigo da primeira classe, o Titó.
Tinham de dominar as fragilidades, os medos e as inseguranças,
para assim poderem atolar-se nas nêsperas do José
da Vacaria. Pela cabeça passavam-lhe momentos e
mais momentos, enquanto os seus homens aprontavam mais uma barcaça
e fixavam-na ao fundo com uma poita. Agora estavam em campos opostos,
prontos a enfrentarem-se. A Dona Maria das
Bicicletas encontrava-se numa tertúlia político-literária
no Coreto, quando recebeu a informação do Anão-de-Suspensórios.
O desembarque dos aliados do Norte iria ter lugar na praia de
Paço de Arcos, tal como a visão do Desejado profetizara.
O nevoeiro que invadira a costa era a confirmação.
O passeio junto à marginal ficou despido de calhaus, os
chamados “Pombinhos Brancos”, que foram amontoados a um canto,
prontos para serem despejados sobre o invasor.
- Agarrem-me senão vou-me a eles, - gritou o trotskista
com mais dioptrias do Jota Pimenta, o Bill.
- Calma camarada, calma, os fascistas ainda não chegaram,
- explicou-lhe um “freak” de nome Taka
Takata, agarrando-o pela camisola.
– Eu é que estou “ganzado” mas tu é que tens as
visões, ó meu.
- É das lentes camarada-meu, são das mais baratinhas,
fundos de garrafa. Mas o Partido já prometeu para breve
a ocupação do oculista, e depois dá-me umas
lentes burguesas.
Numa praia a montante o Almirante Craveiro Lopes preparou-se para
dar a ordem de partida, o Navio Almirante emprestado por um patriota
já tinha o motor Yamaha de quatro cavalos a roncar e os
cabos de reboque presos aos outros navios de guerra.
- Nesta viagem vamos descobrir a beleza e a magia que existe em
nosso redor, - disse o cronista Alpedrinha,
dando aos remos e olhando embevecido para o esgoto que cercava
a esquadra e a conduzia em direcção à vitória.
- Este cheiro a maresia excita-me, - exclamou o pequeno Horta,
chicoteando os cavalos. – Lisboa tem o lendário Trancão,
mas nós não lhe ficamos atrás com os filhos
do Jamor.
À medida que a Invencível Armada ia lentamente avançando
rumo ao inimigo, as paisagens encantadoras sucediam-se em catadupa.
Como já era seu hábito, o marujo Charlot
levava os pés dentro da água, que tanto amava e
o inspirava.
- Está quentinha! – Elogiou, mostrando ter tido fortes
influências do impressionismo no passado, sobretudo do Álhi.
Mas agora parecia estar mais ligado ao abstraccionismo lírico,
tinha ficado mais tridimensional com a Revolução
dos Cravos.
- Não tarda nada, cantas, – profetizou o Zé
Preto, mostrando que o Norte era multiétnico. –
Gosto sempre de assistir à ressurreição do
Sol, – disse o Trovão apontando
para a Lua.
Quando passaram em frente à Torre do Relógio, o
nevoeiro abriu um caminho até ele, e mostrou à Invencível
Armada a silhueta imponente da Quitéria
Barbuda, que escolhia sempre onde queria aparecer, e que
estava ali para saudar os guerreiros do Comandante Guélas.
Ao seu lado estava o Barão Pierre-Pomme-de-Terre
que sabia que se avizinhava uma guerra e que era preciso escolher
o lado a que se pertencia. Era este o seu grande dilema. Mas como
empresário o melhor seria ter um pé no Norte e o
outro no Sul. Por isso apresentou-se aos dois líderes como
um “infiltrado da melhor qualidade”, profissão que lhe
dava total independência e liberdade criativa, sem pressões
de qualquer ordem. De repente um raio, vindo dos lados do Bugio,
tombou na cabeça do Alpedrinha, foi-lhe até aos
ossos, e saiu pelo ouvido esquerdo, tendo ainda tempo para acender
o cigarro que o Charlot acabara de pôr na boca. Por momentos
todos pararam e ficaram a olhar para o cronista, que fazia argolas
de fumo com a boca. Subitamente começou a verter para o
caderno, como se tivesse aberto uma via directa do caldeirão
de pesadelos do seu subconsciente, um turbilhão de caracteres
chineses que depressa esgotaram as folhas pautadas, obrigando-o
a continuar pela bordo direito do barco, assim o obrigavam as
mais tensas vibrações mentais.
- O barco, ele vai escrever-me o barco todo, - gritou o Horta
atirando com o escritor pela borda fora.
Anos mais tarde esta enseada acabou por ficar conhecida como a
Praia da Sereia Fascista, porque alguém do Sul, a espiar
as movimentações da Marinha do Norte, disse ter
visto uma sereia a declamar violentamente em cima de uma rocha
em Ladino. Os ecos da invasão agitaram as mentes dos sulistas
e puseram em alerta as gentes do Coreto. Os corifeus do regime
tudo fizeram para que os horrores do Norte não incomodassem
o Comité Central. Contaram aos seus que as emoções
da turba burguesa traziam sempre muita infelicidade. Eles eram
a luz, o Farol do Socialismo, e os do alto representavam a escuridão,
o passado. Na proa do “Torpedo” o Almirante Craveiro Lopes olhou
para o horizonte e sentiu a grande força romântica
do povo de Paço de Arcos, o impulsionador das verdadeiras
transformações, o projector que iluminava a vida
com mais vida.
- Quando os virem, pedrada até lhes partirem os cornos,
a reacção não passará, - gritou o
Pingalim, que tinha sido promovido
a cabo pelo coronel Cabrita, e comandava
um destacamento de cinco bolchevistas, que glorificaram a violência
como resposta à violência que alegadamente os cercava.
Eles conheciam os relatos da brutalidade extrema dos homens do
Comandante Guélas, que chegavam ao cúmulo de usarem
as meias do Ánhuca e as cuecas
do Bajoulo para extraírem
informações. Pesadelos destes tiravam o sono a qualquer
um. O General Titó olhou para os lados da ponte e lembrou-se
do seu antigo amigo que agora comandava a Invencível Armada,
algures dentro daquele nevoeiro cerrado. A Revolução
dos Cravos tinha acabado com o que de mais sagrado existia, a
amizade. Mas só assim é que ele conseguira passar
de pescador analfabeto a gerente diplomado e tudo graças
ao partido, que saneara do banco o vizinho burguês.
Episódio
15
O Dia
D
“Alegre
Apocalipse”, foi o nome de código dado ao desembarque dos
aliados na praia de Paço de Arcos no dia 25 de Novembro
de 1975, pelo ideólogo dos territórios do Norte,
o burguês Carlos Ponta. Mas
duas pequenas alterações mudaram o rumo da história
para sempre: uma devido à acção da Natureza
e outra à acção do Homem. A primeira esteve
relacionada com a maré, que estava a descer na altura da
partida e devido a isto a viagem foi muito rápida, e a
segunda foi causada pelo “Carapau Cocciolo”, o Repimpa comprado
nos Armazéns do “Grandella”, que trouxera um defeito no
pipo. Quando a “Invencível Armada” estava a passar ao largo
da Praia Velha, que um dia foi a preferida do rei, o pipo deficiente
deu o último pio e o ar saiu de rajada, ficando toda a
tripulação a olhar escandalizada para o João
da Quinta que, contra todas as ordens superiores, insistira
em comer uma feijoada no restaurante “O Dinamite de Caxias” na
noite da véspera. O Almirante deu de imediato ordem de
desembarque, pois o estrondo tinha acordado as gaivotas do Bugio
e possivelmente as tropas do inimigo, acabando com o efeito surpresa.
Pelas “onze horas e trinta e cinco minutos do dia 25 de Novembro
do Ano da Graça de Nosso Senhor de mil novecentos e setenta
e cinco”, a “Invencível Armada”, comandada pelo Almirante
Craveiro Lopes, desembarcou o glorioso
exército do Comandante Guélas,
constituído por uma união mística dos povos
do norte da vila, que se auto-intitulava “região ecuménica
de valores”. Em frente do marinheiro uma inscrição
numa parede chamou-o à atenção:
“Manel,
a partir de hoje fazes tu o jantar! Assinado Maria, Viva a Revolução
dos Cravos”
- Prometo-vos
que hoje ao jantar as Marias voltam para a cozinha!
O senhor Charlot (nome oficial Daniel)
colocou-se à frente da expedição e deu ordem
para a invasão cantando, com o único pulmão
disponível, o hino do Alto de Paço de Arcos, “É
Motorista”. O povo idolatrava-o e a partir daqui beatificou-o.
Quem assistiu do balcão a todas as movimentações
deste poderoso exército, descreveu a cena como uma epopeia
pintada em muitas telas abertas. O senhor Palitó
encontrava-se em cima da maior árvore da Avenida, que ostentava
no topo uma enorme bandeira vermelha com uma foice e um martelo,
a “caçar pardais nas curvas” com a sua espingarda de canos
tortos, quando viu passar por baixo o cantor-herói, descalço,
deixando riscos no alcatrão com as suas magníficas
unhas. Atrás ia o Horta, o
proprietário do Navio Almirante, em mangas de camisa e
com sapatos de cabedal brancos, pontiagudos, decorados com a figura
do leão “Kimba”. Atrás ia o resto do faraónico
exército, pronto para enfrentar as massas vegetantes de
uma revolução sem regras, que tinha criado uma nova
classe social, os Humilhados e Oprimidos de Abril (HOA). À
medida que o exército do Comandante Guélas ia avançando
em direcção ao último reduto do inimigo,
na Praia de Paço de Arcos, o povo aplaudiu os novos libertadores,
dando a sensação de serem todos filhos da mulher
do almirante, a Quitéria Barbuda.
O “É Motorista” parecia agora uma melopeia eclesial, com
batida forte, cantada por toda a gente, formando um espantoso
espectáculo visual. De um momento para o outro apareceu,
vindo dos lados dos correios, um Mini branco com duas pessoas,
um adolescente ao volante, e um adulto em pé munido de
uma arma de porção-de-ar, que deixou muita gente
a coçar a cabeça, intrigada.
- Olha Florbela, um tanque! – Gritou um popular que estava sentado
na muralha do quartel de electromecânica.
O Almirante Craveiro Lopes cumprimentou
efusivamente esta dupla de guerreiros, revelando terem um laço
mais forte do que a dependência dos vícios. Mas quem
seria aquele jovem capitão com a “Diana 25”? Iniciou-se
uma cadeia de respostas e de contradições.
Quando o General Titó se apercebeu
do terrível erro estratégico que tinha cometido,
tentou recorrer ao boato para alterar a situação.
Pagou ao Ló, um “expert” na
matéria, para ir à Avenida assustar o povo: o inglês
que se encontrava enterrado debaixo do marco na Marginal, junto
à praia de Paço de Arcos,
Sir Conway Shiply, tinha ressuscitado
e estava a telefonar para Inglaterra, do café “Kitanda”
no Pimenta, a pedir o apoio da Royal Navy contra os fascistas.
E para provar que tudo isto era verdade, o Titó mandara
fundear uma chata ao largo da praia e trocara a tabuleta “Visites
Fontainhas Grotten”, por uma com o nome do navio que o bife comandava
na altura em que foi abatido pelas tropas de Napoleão,
que tinham ocupado Lisboa, o “La Nymphe”, no dia 23 de Abril de
1808. Quando o agente do Sul deu de caras com o pessoal do Norte
colocou-se no meio da estrada com os braços abertos.
- Fujam, fujam, o inglês da praia ressuscitou e o esqueleto
vem aí, – gritou.
Tudo estava a desfavor dos sociólogos internacionalistas.
Dos factos históricos o povo só sabia, e de cor,
os cognomes dos reis. Esta história do inglês encontrado
morto na praia de Paço de Arcos só podia vir da
cabeça de um “drógado”, uma das vítimas do
retornado Alice e das suas ervinhas
mágicas. O Ló provou ao povo que a contra-revolução
do Comandante Guélas era um assunto premente. A cena de
um louco com os braços abertos entre dois exércitos
só precipitou os acontecimentos. Quando o Almirante Craveiro
Lopes chegou à praia, foi recebido efusivamente pelo Pierre
Pomme-de-Terre que os informou que o inimigo tinha sido
dizimado pelas suas mãos. E para provar o que dissera,
apontou para o lago de sangue que ocupava metade da praia, que
pertencia às vacas do matadouro municipal. Este “paçoarquiano”
patriota representava o amor da fama, o gosto do dinheiro, a inclinação
para o luxo, o pendor para o exibicionismo, mostrando ao mundo
porque éramos os maiores produtores de cortiça e
fabricantes de rolhas. Aclamado pelo povo, o Comandante em Chefe
dos Exércitos de Paço de Arcos de Cima (CEPAC),
subiu ao Coreto, agora propriedade do Comandante Guélas,
e gritou:
- Yo lo heredé, you lo compré, you lo conquisté,
– fazendo suas as palavras do seu ídolo, Filipe I de Portugal.
À noite foi oferecido um jantar de sardinhas assadas e
vinho tinto na Terrugem ao “bom povo de Paço de Arcos”.
Consta que o Titó também esteve presente e foi o
que deu mais “vivas” aos militares que libertaram o povo da Parte
de Baixo de Paço de Arcos das “garras dos social-fascistas”.
Episódio
16
A Vitória
Final
No topo
do depósito de água do Alto da Loba a personagem
fluida, de contornos indefinidos, em mutação contínua
e receptivo a todas as sensações, que dava pelo
nome de Comandante Guélas,
declarou Paço de Arcos como a única região
da Costa do Estoril com um Centro, o café do senhor Manuel
da Leitaria, e um fundamento, a “União Mística”,
enquanto bebia um Pirolito traçado, com abafador, e olhava
para o mar. Atrás de si estava o Craveiro
Lopes num violento solilóquio. O nascimento da República
Independente do Alto de Paço de Arcos , agora com carácter
oficial, e dona dos limites geográficos da vila, representava
a fusão entre o real e o sonho. Com medo que as tropas
do Comandante Guélas conquistassem todo o país,
o Conselho da Revolução aceitou a independência
da vila, com a condição de não dizerem nada
a ninguém. O acordo foi assinado com pompa e circunstância
no meio de furtos sem grande significado, principalmente durante
as trocas feitas à pressa das foices e martelos de ouro
por cruzes de prata, mais condizentes com a situação.
A maior parte destes objectos foi parar aos bolsos do Alice,
o precursor do Casal Ventoso. Não muito longe dali, o agora
Ministro dos Desportos e Finanças, o Engenheiro
Anão-de-Suspensórios, transformou a sede
do Clube de Futebol em ministério, colocando uma estátua
de Aquiles na secretária. O movimento de oscilação
de um corpo a tentar recuperar o equilíbrio chamou à
atenção do povo, que viu o seu herói Craveiro
Lopes, Comandante em Chefe dos Aliados que desembarcaram na Praia
Velha, num movimento que denunciava o esforço de alguém
que procurava um corrimão ao qual se segurar antes de iniciar
a descida. Encontrou o Comandante Guélas. A queda do líder
sobre a multidão fez um som cheio, molhado, mostrando que
tinha a moralidade precisa para o lugar. O “Voo da Águia”,
como ficou conhecida esta cena, passou a fazer parte da mitologia,
da arte e da literatura de Paço de Arcos. As tendências
camaleónicas do senhor Pierre-Pomme-de-Terre
acentuaram-se à medida que os lugares no novo governo iam
sendo distribuídos. A “Revolução do Comandante
Guélas”, como os “paçoarquianos” (nome oficial)
e não “paço-arcoenses”, como insistia a oposição,
passaram a chamar à mudança de regime, foi um acontecimento
único, dificilmente repetível. Foi a “revolta das
palavras”, com as quais o Comandante Guélas mudou a vida
de todos, aumentando-lhes a potência. O Ministro da Presidência,
o Engenheiro Craveiro Lopes, fez uma bela secretária com
umas madeiras retiradas do curral da mula do Manelinho
do Estrume, e espetou-lhe ao centro uma estátua
de Ulisses. No ar havia uma certa dose de amor, que se fundia
a uma notável habilidade no manuseio de cervejas, dando
lugar à aliança entre a paixão e o prazer.
Devido a isto a Tita-dos-Pés-Sujos
foi eleita a mais bela princesa da Terrugem, no momento em que
o mano do Bigornas lhe tirou uma
fotografia quando ela, às cavalitas do seu Bajoulo,
empunhava uma bandeira do Benfica. Para os finalistas da 4ª
classe esta ficou a imagem-ícone do Novembro de 75. Ele
era despachado e directo, ela mais introspectiva e cheirava a
marisco.
Placa
comemorativa da Revolução à entrada da Terrugem
“Aqui posto de comando do Movimento do Comandante Guélas.
Apelamos a todos os paçoarquianos para saírem das
suas casas e barracas, trazerem as bóias e os repimpas,
e juntarem-se à Invencível Armada fundeada na Praia
de Caxias.”
Capitão Ánhuca, no dia 24 de Novembro de 1975, véspera
do Dia D.