Exclusivo Paço de Arcos

Novela Paço-Arcoense

"O Manuel da Leitaria"

Grande romance Paço Arcoense passado no PREC

Com a colaboração de todas as personagens, vivas e mortas, da Vila mais importante do país.

Episódio 1

 

“Sempre que uma linha de comboio divide uma localidade ao meio, há sempre uma parte de cima e uma parte de baixo.”


Fernindó, filósofo Paçoarquiano


Estamos no ano 2008 depois de Cristo, toda a zona ocidental da Península Ibérica está ocupada pelos portugueses…toda? Não! Uma vila habitada por irredutíveis “paçoarquianos” (classificação oficial, para combater a lusitana “paço-arcoenses”) conseguiu a sua independência 19 meses depois da Revolução dos Cravos. Com medo que as tropas do Comandante Guélas conquistassem todo o território português, o Conselho da Revolução aceitou a independência de Paço de Arcos, pondo como condição que não dissessem nada a ninguém.

I

A Praceta

A fila na “Jomarte” já dava a volta à praceta quando o dono da “Leitaria Vitória”, que vendia “meio-gordo” à taça traçado com gasosa, resolveu ir dar lustro às maçãs vermelhas, que enfeitavam o passeio. Ele sabia que mal os raios do Sol batessem nos citrinos, eles reflectiriam a luz e atrairiam ao seu estabelecimento todas as velhas pirosas da região. Era o chamado “efeito mosquito”, técnica de marketing que o Bigornas da Loja de Fotografia odiava, porque ele detestava clientes, pois representavam interrupção na leitura dos livros de quadradinhos. Mas as pessoas teimavam em engrossar a fila da porta da sua loja, única em toda a freguesia. A primeira escarreta do senhor Vitório bateu com violência na maçã e respingou para cima das couves. Seguiu-se a fase do “dar lustro” com uma cueca reformada, que deixou a fruta com o brilho esplendoroso de um diamante. Meia-hora de cuspidelas depois já a “Leitaria Vitória” estava atafulhada de velhas com o “cabelo em riste”, atraída pela fruta reluzente.
- Taradas, – disse o senhor Bigornas ao ver o desenho assinado pelo Vilhena.
No balcão da “Jomarte” alguém tossiu ao ouvir a voz do proprietário. Até o podiam chamar que ele só viria quando acabasse a leitura. Em frente ao “Café Picadily” o senhor Américo atirou uma carica à cabeça de uma velha que acabara de sair e que nem notou que o objecto ficara colado à laca.
- Parece que vão à bomba da gasolina, enfiam a mangueira de pressão no cu e depois da gatilhada o cabelo sobe, – disse o Daniel, rindo-se.
No estabelecimento comercial do Ligóia a “ficha-tripla” era o que se estava a vender melhor. Em frente à porta, mas do outro lado do passeio, o Grilo passou apressado, com os bolsos carregadinhos de “produto”, para ser consumido no jardim, junto ao parque infantil, com o seu colega Taka Takata, que um dia fora considerado o melhor aluno do Liceu de Oeiras, com nome no Quadro de Honra, mas que se passara devido ao excesso de hóstias que as tias o tinham obrigado a engolir na infância. Passara da gravata à crista-de-galo num abrir e fechar de olhos, e tudo graças à Revolução dos Capitães, que tinha introduzido os charros no país. Na curva da esquina, junto ao Café do senhor Américo, o coronel Osório, um militar da velha guarda, levava um cartão vermelho da esposa, que cheirava a pó-de-talco e a naftalina. Uns metros abaixo, lá para os lados da Avenida, conspirava-se no coreto. O senhor Pierre-Pomme-de-Terre transmitia as ordens que trouxera do monte, mais propriamente da barraca da Dra. Quitéria Barbuda, na Terrugem. A revolução estava em marcha, a República Independente do Alto de Paço de Arcos (RIAPA) iria tornar-se uma realidade, custasse o que custasse. Só estavam à espera que a anarquia do pós-25 de Abril refinasse e que a lei caísse de vez nas ruas. Até lá, todos se deviam preparar, pois cada um teria o seu papel especial.
- Têm de ir receber instruções ao café do Manel da Leitaria.
No centro da conspiração de Paço de Arcos de Baixo (PAB), terra ocupada pela comunistada burguesa, que erguera a bandeira vermelha no cimo da maior árvore do jardim da Avenida, estava o senhor Tubarão, com a promessa de nomeação a general quando a RIAPA se tornasse realidade. Palavra de honra da potestade de Paço de Arcos de Cima (PAC), o glorioso Comandante Guélas. A figura imponente deste futuro militar era agravada por um par de óculos só de uma lente, para assim estar mais parecido com um militar do exército prussiano. Um vulto pequenino e coxo passou apressado pelo grupo de cinco pessoas e fez, meio escondido, o “V” da vitória, não fosse algum informador ir bufar-se à Dona Maria das Bicicletas, braço direito do suíno da papelaria.
- Está para breve a nossa vitória, – disse com convicção o anafado Pierre Pomme-de-Terre, que todos sabiam gostar de alardear heroísmos, mas que na hora decisiva nunca iria dar o corpo ao manifesto. – Mas para isso têm de encher isto num peditório pela causa, – e entregou uma latinha redonda a cada um, com um caranguejo desenhado e uma frase emendada, “Luta Paçoarquiana Contra a Comunistada (LPCC). – O cabo Bajoulo irá recolhê-las no final do mês. Agora ide e que o Comandante Guélas os abençoe que eu não tenho troco.
A Leitaria do senhor Manuel só vendia meio-gordo tinto à taça, traçado com um pirolito, como era tradição na vila desavinda. Situava-se numa encruzilhada, perto da casa do Mocho, um chefe tribal apoiante do cimo, que tinha às suas ordens todos os chulos do Pimenta, o bairro mais elegante da região. Quando os mandatários do Pierre Pomme-de-Terre entraram no café do senhor Manuel da Leitaria, o Balatuca acabara de dar um murro no vidro da máquina de flippers, tendo esmagado o crocodilo que puxava as bolas, quando se pressionava o segundo botão direito.
- O “tilt” parou isto tudo, – resmungava. – Eu só levantei as pernas da frente da máquina.
Mas a revolução escrevia-se torto por linhas direitas, e o Janeca (que já charrava cigarros de chocolate) já tinha abafado as bolas, que tinham ficado a descoberto depois do vidro quebrado, e distribuíra-as pelos cinco agentes acabados de chegar.
- São munições para quando chegar o dia D.
Na esquina da Dáni o Ánhuca abriu o saco dos berlindes e cada um depositou o produto. Feito isto o “burro”, nome de código, rumou ao Alto em direcção aos territórios do seu mestre Comandante Guélas. As bolas foram entregues ao Craveiro Lopes, mas como a nódoa também cai no melhor revolucionário, o senhor arremessou-as à cabeça do seu grande amor, de nome Quitéria Barbuda, que caiu redonda dentro da banheira, em cima de uma galinha que estava a chocar meia dúzia de ovos, que desapareceram pelo cano abaixo. Estava tão cego pela grandeza que o meio-gordo tinto lhe tinha dado, que o mensageiro Ánhuca teve de fugir a sete pés para não ir fazer companhia às duas galinhas, a Quitéria e a genuína. Dissimulado na distância estava o Manelinho do Estrume, agachado atrás de umas silvas, vítima de uma feijoada exagerada que o obrigava a pulvilhar o entulho de uma obra clandestina antiga. Assim permaneceu resguardado até ver desaparecer no horizonte o vizinho, a esbracejar sem nexo nem sentido, porque reagia mal quando o acusavam de ter pertencido à PIDE. Afinal a atitude que tivera contra o seu grande amor devia-se a um equívoco: as palavras que a Quitéria pronunciara no preciso momento em que o Ánhuca lhe entregara as bolas dos flippers tinham sido “pica, pica, pica”, enquanto atirava milho para o galináceo e não “pide, pide, pide”. Ser um revolucionário era uma arma de dois gumes – ou matava ou heroicizava.

Episódio 2

II

Razão e Bons Costumes

Um dos objectivos do Comandante Guélas era combater a degradação crescente da qualidade dos habitantes de Paço de Arcos. Pessoas como o Ánhuca, o Balatuca, o Grilo, o Taka Takata, o Ratinho Blanco, o Bajoulo, o Pierre Pomme-de-Terre, o Álhi, o Charlot, o Coronel Osório, o Mocho, o Ligóia, o Chico Americano, o Janeca, o Russo, o Zé Luís, estavam agora a ser substituídos pela Tita dos Pés Sujos, o Xantola, o Mágu (futuro segundo esposo da Tita, depois de o Bajoulo a trocar por um camelo cheio de grades de cerveja), o Volkswagen, o Bill e muitos outros degenerados que a História nunca iria mencionar. Passava-se lentamente da Ínclita Geração Paçoarquiana para uma Geração Rasca vinda do lado esquerdo da vila. Era preciso travar urgentemente esta degradação genética custasse o que custasse, a terra do grande herói Patrão Lopes tinha de manter viva a lenda dos príncipes perfeitos. Quando a Tita dos Pés Sujos chegou à vila, revelou logo ser uma mulher obsessiva, egocêntrica e dissimulada, com um plano bem definido. Começou por escolher para namorado um filho dum general, o Bajoulo, irmão do maior cobridor da vila, que só acasalava no Algarve, no Verão e longe dos amigos, quando desaparecia nas férias montado na sua potente Honda 50. Era dissimulada porque mantinha a aparência da primeira candidata à presidência da República Portuguesa, a Arlete (que se intitulava anti-fascista, mas que não passava de uma vulgar ladra de electrodomésticos), apresentando assim uns pés dignos de pertencerem ao clube das Meninas do Sado. A obsessão vinha-lhe da mania em querer tornar realidade o sonho do pai, o senhor Xantola, que era tornar o seu café restaurante no primeiro em venda de santolas e cadelinhas. Um pouco mais a norte, na parte de cima da linha, junto à clínica do italiano que curava hemorróidas, e outras maleitas do corpo, com cenouras e rabanetes, morava o Russo, cujas memórias estavam recheadas de tintól e do amor à sua bebedolas. Os bons estudantes sabiam onde é que se vendiam os melhores charros: na casa do Grilo. Os grelos eram bons e os cabritos ainda melhores. Muitos pontos de venda foram trespassados porque não havia negócio. Este “paçoarquiano” fininho misturava caldos Knorr e caliça da Pensão Moreira ao produto, levando os clientes a apanhar as maiores pedradas da Costa do Estoril. Por tudo isto ele era o maior ervanário da vila. Os tempos de liberdade também ajudavam muito o negócio. Entre o Russo, o Grilo e o Craveiro Lopes havia uma relação triangular, que teve importantes implicações na independência do Alto de Paço de Arcos. Mas era difícil imaginar o que tinham em comum o filho de um picheleiro de Porto Salvo, um fanhoso de Vila Fria e o herdeiro de um chinês bêbado clandestino. O Grilo era um dos “dandies” rebeldes da Revolução dos Cravos que forneceu à vila o modelo definitivo do charro, enquanto que o Russo revolucionou por completo o estatuto do estudante das barracas, que levou o seu querido filho Zé Luís a ir fazer os trabalhos de casa dentro de um contentor, novidade absoluta do concelho, por uma questão de sobrevivência, pois a mãe pretendia fazer-lhe a folha, e ele precisava dela para a aritmética. Quem estragou tudo foi a camioneta que o ia engolindo com mochila e tudo, não sem antes ter sentido, de raspão na cabeça, as lâminas da trituradora, que deixaram uma marca profunda na sua alma, tendo-se tornado controlador de trânsito involuntário. Era por isto e muito mais que o Comandante Guélas os queria para a sua causa. Os acontecimentos precipitaram-se na forma distinta como cada um dos artistas se foi posicionando perante o Processo Revolucionário em Curso (PREC). Craveiro Lopes cortou definitiva e epistemologicamente com o Antigo Regime, conservando unicamente a sua barraca, que se manteve na mesma até à hora da sua morte, quando foi detectado três dias depois pelos vizinhos devido ao cheiro pestilento, que até aí tinha os pés do Ánhuca como causa principal. A homenagem que a República Independente do Alto de Paço de Arcos lhe fez, ficou para sempre gravada na memória da geração que nasceu a respirar a “libertação da liberdade”, como disse o velho poeta Fernindó na altura em que atiravam com os restos, impróprios para consumo, do primeiro assessor do Comandante Guélas, para o buraco onde já estava a mula do Manelinho do Estrume, atropelada mortalmente pelo primo surdo-mudo e outras coisas mais, do João da Quinta.
- Vai a montar para o outro mundo, – gritou traumatizado o Charlot. – Mas desta vez não monta a Quitéria, nem as galinhas, mas sim algo maior, a Rosinha, companheira inseparável do Manelinho, que fica agora reduzido ao único filho fêmea. Viva o Craveiro Lopes, viva o nosso bem-amado país. E agora o hino…
E todos cantaram o hino do seu país, o “É Motorista”, que ecoou pelas redondezas, mostrando a força e a raça desta gente descendente do Viriato.

"Eehhh motorista
e o preto preto branco
Precausa da criação
Precausa da sua direita
comigo é uma canção

Eu vou pelas estradas,
estradas de corrimão.
Estava lá o Charlot
a cantar a nova canção

Mas qui tudo, mas qui tudo
Mas qui tudo da criação
estava lá o Charlot
com 2 franguinhos na mão!

Eehhh Motorista
E o preto, preto banco
Precausa da criação
Precausa da sua direita
Comigo é uma canção

Eu vou pelas estradas
Estradas de corrimão
Estava lá o Charlot
Com dois franguinhos na mão

Mas qui tudo, mas qui tudo
Mas qui tudo da criação
Estava lá o Charlot
A cantar a nova canção

Ehhh Motorista
E o preto, preto branco
Precausa da criação
Pré causa da sua direita
Comigo é uma canção

A aura aristocrática do senhor Charlot, de nome oficial Daniel, levava-o a cantar de uma forma muito intuitiva, emocional e energética, enquanto que os companheiros pareciam cavalos desenfreados, mostrando no entanto uma simbiose única na Costa do Estoril. A causa da sua grandeza devia-se ao facto de se ter confrontado, muito novo, com o lado negro da vida. Conseguiu construir relações fortes com os outros, que lhe melhoraram a vida. Era nestas ocasiões de excitação patriótica que conseguia incitar os campos magnéticos da memória e ludibriar a pouca razão que possuía, exorcizando o demónio que morava em si, o Baiona. Os inimigos temiam-no, pois era nestas ocasiões que lhes ferrava os dentes. Com ele por perto os do Sul sentiam-se sempre numa situação de insegurança e de perplexidade. O Charlot era o mito no Norte, só ele conhecia o Comandante Guélas.

Episódio 3

III

Pré – Solaris


O “Tino” era uma daquelas vetustas e tradicionais instituições “paçoarquianas” de cavalheiros, com amplas salas, fruto de uma árdua construção clandestina, com cadeiras de madeira carunchosa (mais conhecidas como “suma–à-pau”), paredes cobertas por antigas escarretas dos membros passados e presentes, e do inevitável calendário com uma loira de mamas até aos pés. Incluía também uma biblioteca com jornais “Record”, a “Bola”, as clássicas “Ginas” e um placard onde se afixavam os nacionais “há pipis” e os regionais “caracoletas das Fontainhas” e “camarão da Cruz Quebrada”. A um canto da sala dos “flippers” um busto de sereia com verdete suplicava a quem, por descuido, se tinha apropriado dos mamilos, os devolvesse por amabilidade. Foi justamente aqui que se licenciaram a maior parte da elite de Paço de Arcos, a ouvir a música do futuro país, o “É Motorista” do senhor Charlot.
Foi no dia 11 de Setembro de 1974, com céu limpo e azul-pálido pontilhado com pequenas nuvens brancas que aqui chegou de novo o mensageiro Ánhuca, trazendo as instruções para a maior operação de terrorismo da Costa do Estoril. Uns dias antes o Marreco Projectista do Cine-Teatro da Vila, que se situava junto ao Chalé da Merda, tinha, depois de vários meio-gordos branco, revelado a surpresa que o Comité Central estava a preparar para cativar a população para a sua casa: a exibição do filme “Solaris”, de borla mas com peditório obrigatório.
- O senhor Carlos Ponta irá à drogaria do António da Lúcia comprar “Litopol” e meia-hora depois, para não dar nas vistas, será a vez do camarada Mac Macléu Ferreira adquirir uma garrafa de “Ácido Muriático”. A entrega será feita na Terrugem no local habitual, - informou o Ánhuca, desaparecendo na sombra.
Qualquer desejo do Comandante Guélas significava uma ordem. Quando o mensageiro aparecia todos sentiam a mesma ansiedade, surda e venenosa, no estômago. O espírito do chefe era extremamente organizado e obsessivamente dirigido para o elemento visual. Era um indivíduo em constante mudança, cuja única imagem oficial revelava um vulto dentro de um fato completo de risca branca fininha, chapéu na cabeça, agachado atrás de umas ervas, que tinha como missão salvar a sua terra da devastação moral que se adivinhava, pois tinha chegado o tempo dos assassinos destituídos do senso moral. A população de Paço de Arcos começara a perder a capacidade de confiar na competência justiceira do Álhi, um bombeiro simples de espírito. Mas aconteceu o imprevisto. Duas horas depois do senhor Carlos Ponta ter entregue o pó no “Manuel da Leitaria”, não havia sinal do ácido. O Craveiro Lopes estava passado e já tinha arreado de novo na Quitéria Barbuda que dormia de novo na banheira, em cima de uma outra franga.
- Vai chamar o Conan, – ordenou o segundo na hierarquia de Paço de Arcos de Cima. – Quero o líquido aqui, dentro de meia-hora. O atentado tem de ser hoje, o dia 11 de Setembro ficará para sempre gravado na memória olfactiva de todos.
Felizmente o Conan Vargas estava em casa quando o Ánhuca tocou à campainha. À porta apareceu o extravagante «dandy», cultor do «deboche», «socialite», alcoólico, «junky» erotista e pintor, que se gabava de dar “sete de seguida sem ver a luz do Sol”, vestido com um pijama de veludo cor-de-rosa pálido. Esta missão foi um empurrão vigoroso para os mais altos voos deste enorme “paçoarquiano”. Foi com a fé numa causa que considerava justa, que Conan desceu e subiu a montanha, trazendo o milagroso líquido, que tornou a descer pelas 20H30, mas agora levado pelo assombroso Milhas.
Nesta guerra fratricida entre o Norte e o Sul de Paço de Arcos, ou melhor, entre a Parte de Cima da Linha (PCL) e a Parte de Baixo da Linha (PBL), nunca houve cadáveres, não porque não houvesse motivações, mas porque a festa era outra e incluía sardinhas assadas e vários garrafões de meio-gordo branco, a bebida espirituosa da vila, que proporcionava, nestes tempos tão quentes, um incomparável deleite social, que tornava as pessoas cultas, imagéticas e sofisticadas. E muita desta paz deveu-se ao poder demiúrgico da imaginação do senhor Pierre Pomme-de-Terre que não tinha limites e ficava assim com um poder absoluto sobre as suas capacidades linguísticas. Devido a isto conseguiu convencer e vender a um sulista fanático, de nome Titó, uma fotografia do Doutor Oliveira Salazar, com uma legenda que o identificava como um homem muito ligado aos trabalhadores, e a um nortista do mesmo calibre, uma fotografia do Doutor Álvaro Cunhal catalogado como um destacado dirigente da União Nacional.
Na Praia Velha, que um dia fora exclusiva de um rei, andava sempre pela manhã o Todo Boneco, mais a sua Diana 28, caçando pardais para o almoço, e à noite caçando empresárias para a ceia. Quando o Sol do amanhecer iluminava as escadinhas, sentava-se calmamente, atirava pão duro para a areia, pondo os pombos do Sul, que moravam nos apartamentos da Avenida, em luta aberta com as gaivotas do Norte, que tinham chalés na lixeira de Vila Fria, ficando pelo meio, aproveitando as migalhas, os pardais, que iam caindo que nem tordos, à medida que o chumbo saia da Diana do Todo-Boneco. Quando o Sol de punha, esperava escondido atrás dum barco pelas donzelas e com a ajuda de um colega de curso, fazia uma emboscada à zebra mostrando-lhe a sua Diana, conseguindo assim vários servicinhos de borla, acabando mais tarde no “Bachil” a falar das subtilezas da sua arte.

Episódio 4

IV

11 de Setembro de 1975

A Praceta prometia ser o palco de um motim, naquela noite abafada do dia 11 de Setembro de 1975. O senhor Trovão, o adolescente mais pequeno da vila de Paço de Arcos, a seguir ao Marreco do Cinema, tinha descoberto a dedada de óleo com que o Chico Sá lhe grafitara o motor reluzente da sua mota, que só saia à rua na época balnear para não se constipar. Os berros, os urros e os flatos que saíam pelas orelhas do pequeno polegar eram tantos, que dava a sensação de um comício de antifascistas. O largo estava atafulhado com uma muralha heterogénea de gente.
- Nesta última semana a comunistada tenta amedrontar-nos, -gritou o Trovão, espumando das orelhas. – Esta é a prova da sua crise espiritual com drogas ilícitas, – e apontou para a impressão digital.
“Crise espiritual com drogas ilícitas”?!! Como é que um indivíduo com a “Infantil incompleta”, que conseguiu chumbar mesmo com as “passagens administrativas” decretas pelo governo, podia debitar palavras burguesas sem se engasgar?
- É melhor agarrarmos no pequeno antes que ele morra sufocado de tanta palavra cara, – alertou o Zé do Fotógrafo, o irmão mais velho do Bigornas, dando um toque ao Escoto, que se preparava para entrar na RTP com uma cunha do pai. Mas o orador insistia:
- Eles pertencem a uma geração sem perspectivas.
Os olhos dos políticos estavam agora fixados naquele “noddy” em crise de crescimento intelectual. Quem o possuísse, alcançaria a vitória.
- Com este Meco ganharemos todas as reuniões na Comissão de Moradores, – disse o Titó, dando um toque no camarada que estava ao seu lado.
Mas graças ao Comandante Guélas os amigos chegaram primeiro. Foi agarrado pelas pernas e braços e obrigado a sentar-se num dos ferros do jardim que delimitava a erva.
No “Manuel da Leitaria”, nome de código da base onde se iniciavam todas as acções de subversão do norte burguês, o comando esperava com preocupação a chegada da outra parte do produto, trazido pelo inconstante Milhas, que insistira em vir montado na sua Honda 50. E o já previsível aconteceu: o beduíno marrou contra um carro e a garrafa caiu do saco e fugiu em direcção à vila.
- O Litopol pirou-se, – gritou o João da Quinta, avisando o Graise que estava mais abaixo.
Mas este só se ria, olhando para o Milhas que estava sentado no alcatrão a olhar para a cicatriz de outro acidente de mota, apesar de só ter batido, de raspão, com o braço do outro lado. Os milagres acontecem e este ficou para a República Independente do Alto de Paço de Arcos, como Fátima está para Portugal. Quando tudo parecia estar perdido para a causa do Norte da vila, pois o ataque ao ninho comuna faria a diferença entre submissão e libertação, o Xinoca tinha sido retido junto ao café “Oceania” por um militar que viera da guerra.
- Jovem, – disse o Capitão Porão agarrando no adolescente. – Tenho uns filmes de Cabinda em casa para tu veres. E ainda tens direito a um cházinho de borla porque estás um pouco amarelado.
Nisto a garrafa galgou o passeio e bateu com violência no rabo do ex-combatente, que fez eco. O chinês “paçoarquiano” aproveitou a distracção do atacante e fugiu com a garrafa em direcção ao centro da vila. Junto ao à leitaria do senhor Manuel teve de parar, pois já ia na “redline” e precisava de uma pinga de rum para continuar a viagem até ao cinema. Quando se preparava para tirar a tampa apareceu o Ánhuca de dentro da base e gritou:
- Espera camarada, quem vai abrir isso é o Cocas e o Peidão. A tua missão acabou aqui, és um herói.
E foi por aquela ordem que se deram os acontecimentos. Quando a longa-metragem russa já estava a rodar, com o cine-teatro de Paço de Arcos completamente cheio, numa noite de Verão, o revolucionário Todo Boneco disse a senha, durante uma ousada cena de um beijo na boca:
- Espera aí que já cospes!
De imediato o Cocas colocou no chão a caixa de fósforos carregadinha de Litopol e o Peidão despejou o Ácido Muriático. Ficaram a olhar para a reacção e mal tiveram tempo de se afastar da nuvem em forma de cogumelo que se formou e desapareceu para os lados do balcão. O Chico Sá tinha acabado de chegar e fugiu em debandada. Atrás dele foi o cinema inteiro, incluindo o Marreco Projectista, o Marreco Marreco, o Focas, que calcou os cornos do único preto existente na vila, que já estava a dormir com a cabeça encostada no ombro do Conan Vargas e os pés nauseabundos ao léu.
- O povo é sereno, – gritava o Titó, – isto é só fumaça, só fumaça.
- Qual fumaça, qual carapuça, isto é merda pura, ó camarada – disse um jovem xungoso com uma t-shirt de foice e martelo, que passou em passo acelerado pelo distribuidor local do “Avante”. Os dados estavam lançados, a revolução para a independência do Alto de Paço de Arcos estava em marcha. Não iria ser só Angola, Moçambique e as outras colónias que iriam ter a independência, mas sim todas as terras que o merecessem. Não houve mais “Solaris” para ninguém, ou melhor, só para os camaradas a quem foi barrada a fuga, incluindo o Milhas, que estava ali não por uma questão política, mas sim porque tinha sido o único otário a pagar bilhete.

Episódio 5

V

Rumo à Vitória

Apesar de um lapso de memória que o obrigou a urinar nas calças, toda a gente elogiava a boa – forma do Craveiro Lopes e aquilo que havia sido o sonho deste visionário: lutar pela libertação da sua terra. Estava ali, perante toda a Terrugem e arredores, tendo por companhia a sua eterna musa de bigode, a Quitéria, o homem decisivo, determinado e duro, que não dobrava nem torcia, a bem do povo e do futuro. O ferrabrás abriu os braços, avançou sozinho para aquela gente indefesa, como os reformados, e provou ao inimigo que era irresistível.
No centro da vila, debaixo do coreto da Avenida, o Titó fazia uma reunião extraordinária para avaliar os danos do atentado do M.I.R.N.E. (Movimento Independente da Restauração do Norte Estudantil).
- Claro que devemos preocupar-nos com o facto de ter havido este atentado violento ao olfacto do povo. Mas confundir isto como uma “derrota final”, é o mesmo que dizer que o nosso informador Pierre Pomme-de-Terre anda a ganhar dinheiro à custa dos dois lados.
- Camarada, mas o cheiro era insuportável, e todos aqueles colegas que foram obrigados a ver o resto daquela merda de filme, perderam o olfacto, – interrompeu o estudante Bill. – Muitos deles já não conseguem distinguir pelo faro um revolucionário dum fascista.
- Deixei de conhecer a minha Maria através dos sovacões. Quero uma indemnização do Comité, – gritou um camarada mais exaltado.
- Isto tudo é verdade, temos de contra-atacar, – insurgiu-se o extremista Pierre Pomme-de-Terre. – Eu tenho a solução para isto tudo, e vai-vos sair barato com o desconto de revolucionário.
- A nossa resposta vai doer e vai ser dada já amanhã na Comissão de Moradores no Jota Pimenta.
- E como?!
- Vamos tirar o direito de voto aos moradores dos chalés, os do Norte. O Carlitos do Cu Vermelho vai interpelar a mesa e lançar a ideia de proibi-los de votarem por serem fascistas. A proposta irá passar, porque nós iremos lá todos, enquanto eles estarão entretidos em frente às rádios, no café Picadili, no derby ”Burrinhos da Pradaria” – “Patrões Lopes”. Com a lei na mão Paço de Arcos será eternamente do povo. Até amanhã camaradas!
No topo da vila o senhor Craveiro Lopes, assessor do Comandante Guélas, tinha dado a palavra ao Ánhuca, o porta-voz e o ideólogo da causa:
- Todos os guerreiros também cagam. Os nossos inimigos estão fragilizados, já não têm capacidade para nos detectar.
No momento em que o Norte proclamava vitória ao som das palavras sábias de um filósofo, no Sul o senhor Palitó, barbeiro do partido e proprietário de um estabelecimento aberto ao público, mostrava orgulhoso aos amigos a espingarda que tinha comprado, com desconto de camarada, ao Pierre Pomme-de-Terre.
- Mas o cano está torto, – disse o Titó.
- O camarada vendedor informou-me que esta arma é a única da Península Ibérica que acerta nos coelhos quando eles vão fazer uma curva.
- Queremos fazer a terra da utopia, - gritou o Ánhuca, amparando o Craveiro Lopes, o herói da Serra da Terrugem que mal se aguentava em pé devido ao excesso de meio-gordo branco. – Este homem que está aqui, encostado a mim, é o porta-estandarte do nacionalismo “paçoarquiano”.
No meio da multidão um menino gordinho e caixa-de-óculos agitava tanto uma bandeira da “Olá”, que chamou a atenção do orador. A uma ordem deste, um dos muitos filhos do Manelinho do Estrume foi buscar a criança para o palanque, aproveitando a ocasião para lhe gamar o “baunilho-chololate”.
- Tenho aqui, junto a mim, um representante da geração que vai crescer em liberdade. Como é que te chamas, ó petiz? – Perguntou, dobrando-se carinhosamente sobre a criança, e não resistindo ao pecado de apalpa-la.
- Isaltino, – respondeu muito a custo o menino gordo.
- Isaltino?!! Nome de pássaro exótico! Fixem este nome que vai daqui abençoado pelo Comandante Guélas e ainda trará muitas alegrias à nossa terra, - gritou para a multidão em êxtase, apontando para o céu.
Mas o dia tinha ainda mais atracções, o Atlético Clube da Terrugem, cuja política era a de não contratação de jogadores não-terrugenses, iria jogar com o Benfica Clube Comité da Avenida, cuja política era a não contratação de jogadores não-camaradas. O desporto, tal como a política, tinha destas coisas, levar as pessoas a passar, durante noventa minutos, da sua loucura interior para a loucura exterior. O embate teria lugar em campo neutro, no Estádio do Batatinha, em Vila Fria, junto à lixeira municipal.
A arquitectura dos edifícios públicos (a Barraca do Craveiro, a Garagem da mula do Manelinho, o Pombal do João da Quinta, o Chalé do Todo-Boneco) e privados (o Mirante do Pitrongas, a Casa dos Milhas) do Norte de Paço de Arcos, a elegância com que as mulheres usavam os mesmos vestidos e as mesmas cuecas o ano inteiro, a atmosfera da alta sociedade da Terrugem, que atestava refinamento social extremo, contrastava com a nudez, a rudeza e a ignorância da população do Sul de Paço de Arcos, devido a fantasias ruinosas de planificação económica.

Episódio 6

VI

Até amanhã Camaradas

A resposta do Sul marxista foi brutal. Organizaram um festival urbano-depressivo na Avenida, com o coreto, símbolo da Revolução de Abril, como palco. No cartaz de espectáculos dois pesos pesados do mundo artístico da Costa do Estoril: a lendária banda de “Carlos Ribeiro Mais 4” e os profetas do Rock progressivo os “A Ferro e Fogo”. Pretendiam criar um verdadeiro “estado de arte”. Mas havia mais, muito mais. No lado esquerdo o Baile dos Bombeiros Voluntários convidava ao deboche e no lado direito a Cremesse fazia um apelo à generosidade do povo, num acordo com o Comité de fifty / fifty, isento de política e atestadinho de pragmatismo. Pretendia-se com este evento cultural dar a volta ao miolo da arraia-miúda. O senhor Balacó, que se auto-intitulava o General Vermelho, tinha conseguido o apoio dos piores cegos, que estavam cheios da indiferença e das mentiras do Comandante Guélas que, segundo eles, tinha uma visão arcaica de Paço de Arcos. Quando o Balacó lhes prometeu recuperarem a visão, roubada pelos antepassados dos fascistas do Norte há muitos séculos, a multidão inflamou-se espontaneamente como simples fogo-fátuo, ou para ser mais popular, fogo-flato. E agravou a situação quando contou as piores profecias para aqueles que caíssem nas mãos do inimigo: a tortura do sono, em que o prisioneiro ficava fechado numa cave escura com as meias do Ánhuca penduradas no tecto, e nos casos mais graves com as cuecas do Bajoulo e o senhor Peidão em pessoa. Neste comício foram usados os modernos ilusionistas da realidade virtual, o Gang Madness da Tapada, guiados pelo seu Líder Supremo, o Super-Cabeçudo, que fora um dia antes à loja do senhor Bigornas, para lhe pedir que colocasse a sua foto na montra.
A Avenida estava cheia de gente quando os 7 elementos da banda sensação “Carlos Ribeiro Mais 4” subiram ao coreto.
Na estação de Paço de Arcos, a fronteira entre o Norte burguês e o Sul proletário, o senhor Pierre Pomme-de-Terre fazia um peditório para a constituição de um património artístico público em Paço de Arcos, que seria depositado no Chalé da Merda. A um canto, junto à bilheteira, o senhor Bajoulo beijava a dona Tita dos Pés Sujos com paixão, ternura, cerimónia, afecto, amor, exuberância, numa troca de sabores, cheiros, texturas, segredos e emoções, ao mesmo tempo que debicava numa cervejola poisada no banco, comprada minutos antes no “Bachil”, o café da moda, propriedade do senhor Pinguim, que fizera toda a sua carreira especializando-se na ruína dos outros. Neste espaço de fronteira cruzavam-se duas civilizações de Paço de Arcos que se sobrepunham e se estranhavam, com religiões distintas, animais exóticos, em que o Sinai, o cão do Milhas, era o mais original, com um tufo num olho e orelhas de burro, e comidas inacreditáveis, como por exemplo “xantolas escarradas” no restaurante do senhor Xantola. Um pouco mais abaixo, o senhor Capitão Porão andava atarefado a tentar transformar o seu apartamento num templo iniciático para adolescentes, ao mesmo tempo que comia azeitonas pretas. Era altivo quando fisgava o cabrito que desejava assar e humilde quando se preparava para lhes comer os legumes. Dizia aos jovens que em vez da precipitação e leviandade, a vida podia ser feita de sabedoria e prudência.
A montagem do palco, a iluminação e o sistema de som ficaram a cargo dos senhores Cientista Maluco e Bakaus, aquele que utilizava como fiel da balança o seu desempenho sexual, que ainda tiveram tempo de ir gamar umas lâmpadas ultravioletas às máquinas de jogos do maior Centro Comercial da Costa do Estoril, o “Áries”, situado por debaixo do apartamento do Capitão Porão. Os empresários Piu e Toni, proprietários do espaço, nem os viram, pois estavam a recolher as moedas de 5 tostões espalmadas que faziam a vez das de cinco escudos, preço oficial, que atestavam as máquinas de fliperes. Ao inicio da noite a Avenida já estava animada com os fãs xungosos do Sul trajados a rigor, vestidos de negro, porque já não mudavam de roupa desde o dia da Revolução dos Cravos e que pertenciam ao proletariado, e os queques burgueses do Norte, trajados a rigor pelos “Profírios”, com direito a maquilhagem e cabelo com Pitralon 2000.

Episódio 7

VII

O “Cantinho das Putas Velhas”

 

À medida que a Revolução dos Cravos avançava, a amizade entre o jovem Bajoulo e a menina Tita dos Pés Sujos parecia cada vez mais madura, profunda e indestrutível. Mas ambos revelaram-se incapazes de fugir ao destino, apesar da pujante herança genética do macho. Era dia de Comissão de Moradores e todas as atenções estavam viradas para o Clube Desportivo de Paço de Arcos. Todas?!! Todas não, pois havia um derby no Real Campo de Vila Fria, propriedade do Abromobatatinha, junto à lixeira. O encontro era de gigantes, os “Burrinhos da Pradaria”, clube centenário da parte de cima da linha iam defrontar o “Real Patrão Lopes” da parte de baixo da linha. Enquanto isso na Leitaria do Manuel conspirava-se baixinho, à medida que se enfiavam umas bejecas pela goela abaixo ao som do barulho das novas bolas mecânicas da máquina de flippers. Os do Norte davam os últimos retoques nos planos do novo ataque com Litopol, enquanto que os do Sul concluíam os retoques finais da tomada do poder com a “palavra”.
A tradição cumpria-se com mais uma primeira parte de um jogo a chegar ao final sem a intervenção externa do apito. Pela milésima vez o Chico tinha atingido a “redline” e queimara as juntas da cabeça, colando-se à sombra do Tio Fininho, que estava impecavelmente vestido com um equipamento preto de ciclista, comprado na “Maria das Biciletas”. O estado de alma do Chico reflectia-se no fumo que lhe saia pelas orelhas e na cor avermelhada que lhe forrava a “fácies”. Estava à beira de um ataque de caspa! Ao longe o papá, impecavelmente vestido com um equipamento do Sporting, que incluía meias e chuteiras verdes do Ánhuca, tentava trazer o filho para a realidade, sabendo de antemão que tal seria impossível, porque uma vez o mal instalado nos genes, não havia nada que conseguisse apagar o tal risco profundo que, em quase todos os jogos desta liga milionária, colocava o pequeno-grande Chico à beira do precipício.
- Chico, não lhe ligues, o Fininho é assim mesmo!
Mas nada demovia o colosso de estar colado à sombra do “tio”. O mal dele era ter ido para o curso de Logística de Mulas. Desde esse momento o tio Fininho tornara-se muito exigente com os estudos do “sobrinho emprestado”, um rapagão que trocara os livros pelos copos, fazendo-lhe interrogatórios massivos sobre o comportamento da “Carreira para o Pimenta”. Pelo meio ia-lhe agradecendo os golos que teimavam em entrar na baliza da equipa de que o colosso do Marinheiro fazia parte, tendo como companheiro o inebriante Milhas, que teimava em dar orientações tácticas desde que o apito assinalara o início da partida. E no calor da discussão ninguém se apercebeu da saída intempestiva do careca de meia-idade, que tinha atingido o prazo de jogabilidade, em virtude de ter sido traído pela “claustrofobia por espaços vastos” que o impedia de respirar, compensando o défice com escarretas fininhas. Pelo meio o Médico, sobrinho do Chico Sá, do Espalha e do Peidão, interrogava o Pequeno Polegar, de nome de guerra Biblot, sobre os motivos que o levavam a ir sempre disputar as bolas altas nas Grande Áreas. Mas o assunto da jornada era a grandiloquência do Chico, que teimava em rosnar junto ao “tio”, enchendo-lhe o fatinho de perdigotos, e isso o jogador Fininho não tolerava:
- Não me diriges a palavra com a boca cheia de azeitonas, – indignou-se o jogador com equipamento de ciclista, apontando um indicador ameaçador ao “Colosso das Palmeiras”.
E nisto uma bola tresmalhada passou a rasar a cabeça do Milhas. Tinha sido o Ruben, que ainda não se apercebera que o jogo estava em “pausa”.
Lá em baixo, muito em baixo, o Titó dava uma martelada na mesa para dar inicio a mais uma sessão de povo, muito em voga nestes tempos quentes.
- Recebi uma proposta de um camarada do lado esquerdo da bancada, que propõe retirar o direito de voto aos moradores dos chalés, - gritou o imparcial membro da mesa, aplaudindo a ideia. – Quem vota a favor?
Muitos dedos no ar.
- Quem vota contra?
Muitos dedos no ar.
- A proposta foi aprovada por maioria.
Aplausos de um lado, insultos do outro, um dedo no ar no balcão do meio.
- Tenha a palavra o cidadão Ratinho Blanco.
- Amigo e companheiro Titó, com esta resolução os moradores dos chalés deixam democraticamente de ter direito ao voto?
- Correcto e afirmativo!
- Então vai haver aqui uma maioria silenciosa?
- Minoria, quer V.Exa. dizer. Uma minoria de fascistas, que moram em chalés.
- Mas eu também moro num chalé, nas pedreiras. As barracas também são vivendas, que em vez de relva têm couves.
Estava lançado o caos. O agente encoberto do Comandante Guélas, o cabo Ratinho Blanco, lançara a confusão no meio do povo e já ninguém se entendia. O Sul perdera mais uma batalha, desta vez a “Intelectual”. Tentaram contra-atacar com a idade de voto, mas só pioraram a situação.
Em Vila Fria dava-se início à segunda parte do encontro.
O tempo era de mudanças, a Velha Geração de jogadores formada na Praia de Carcavelos, com o esgoto a servir de linha lateral, estava a receber novos reforços, filhos, sobrinhos e amigos destes, que traziam uma nova dinâmica à modalidade, para pior, uma vez que esta juventude estava mais habituada aos copos sentados do que aos copos em pé, reflectindo-se estes maus hábitos na sua péssima condição física. E esta característica fazia toda a diferença neste tão popular desporto de “fim-de-semana com autorização escrita das mulheres”. Mas havia alguém que andava com a cabeça à roda por causa desta invasão de tenrinhos, aparecidos por geração espontânea. Eles tratavam-no com respeito, diziam “sim” aos seus convites para tertúlias em sua casa, mostrando serem muito diferentes da Geração Fascista dos pais e dos tios, como por exemplo o Chico Sá, que perguntava sempre aos amigos “Ouviste o eco?” de cada vez que a bola batia com violência no “bumbum” do Capitão. Os tenrinhos até o tratavam por “Tio Porão”! Ao aceitar o lanchinho do Capitão Porão, o Tona revelava não estar com a lucidez necessária, nem nunca ter ouvido falar da história do “Capuchinho Vermelho”. Foi preciso passar algum tempo, deixar baixar a poeira, ganhar a distância, para que os amigos o confrontassem com a verdade. Este “inocente” convite do militar de Abril mudou para sempre a carreira futebolística deste jovem ingénuo e veio mostrar o fosso que separava aquelas duas gerações de “profissionais” da bola. O jovem careca não estava habituado a deparar-se sempre com um defesa adversário que protegia a sua área e a bola de costas viradas para ele. E tantas foram as vezes com que se deparou com um “bumbum” a convidá-lo para a luxúria que, tal como a Leonor do poema, acabou por partir-lhe a bilha, mais propriamente enganar-se e chutar no pé do velho, em vez de o fazer no esférico. Por momentos aqueles dois corpos, um tenrinho e o outro com caruncho, moveram-se, agiram, num único movimento sussurrante, tocando-se levemente no ar, num gesto que se aproximou dos outros coxos, com um virtuosismo técnico tão elaborado, que fez com que ninguém visse que o Milhas tinha tocado com as duas mãos na bola. O reencontro do Pona com o Capitão teve uma sensibilidade poética, que levantou a dúvida quando se deu o contacto do corpo rançoso com o solo e dele saiu um grito alucinante com diferentes interpretações:
- Foi um gostinho, – disse o Fininho.
- Deu o berro, – atirou o Chico Sá.
- Perdemos o guardião do saber e da memória de uma espécie de homem que um dia nos treinou para o Torneio de Futebol de 5 no Pavilhão de Paço de Arcos, – lamentou o Milhas, deixando cair uma lágrima.
- O Capitão é que se esborrachou, mas o Milhas é que está a delirar, – exclamou o Peidão.
- É falta do velho! – Sentenciou o único jogador lúcido, o Caramelo, sobrepondo-se à decisão do árbitro que estava ao seu lado, a tentar soprar no apito que tinha entupido com um pedaço de tremoço servido pelos representantes do Sul, no intervalo
O caso não era tão simples e natural, tinha agora uma dimensão metafísica. A imagem do mais velho jogador vermelho de futebol de Paço de Arcos esticadinho no pelado, estilo bacalhau, iria ficar gravada para sempre nas memórias de todos, como um momento único, desarmante. Mas ninguém se apercebera das terríveis consequências, ao nível político, que este espectáculo, simples e natural, iria ter sobre o PREC. Dali para a frente tornaram-se diferentes. Fora preciso aparecer uma nova revoada de tenrinhos para atirar por terra e arrumar a excitante carreira militarista do mais capitão de todos os capitães, a seguir ao Patrão Lopes. O dinossauro foi ao chão em decúbito ventral e por lá ficou no meio de estranhos movimentos de cobrição e dor. Quanto ao Tona, encontrava-se de pé debruçado sobre o ferido, sem saber o que fazer. A Velha Geração aconselhava-o, por gestos, a deitar-se sobre o moribundo, evitando que ele arrefecesse, e também como forma de compensação pelos danos sofridos. Mas o Capitão queria outro, o futuro Médico e disse-o em estilo comando:
- Tiago, leva-me a casa!
Todos imaginaram a entrada do militar em casa ao colo do tenrinho, tal qual um par de recém-casados. A recusa do contemplado foi imediata e as atenções voltaram-se novamente para o Pona, que tentava escapulir-se da zona do acidente.
- Eu vim de mota, – desculpou-se, abrindo os braços.
- O ferido não se importa de ir sentado de lado, muito agarradinho, – esclareceu o Chico Sá.
Quem ajudou o Capitão a instalar-se no Mini e a desenrascar-se a partir daí foi o Choné, um jogador com uma perna-de-pau e uma careca maior e muito mais velha do que a do Tona. Quanto ao velho, não teve outro remédio senão pendurar as chuteiras junto às recordações de África, as caveiras de antílopes e as cabeças em pau-preto, com as cuecas do pelotão! O Norte do Comandante Guélas saia deste jogo com uma estrondosa vitória sobre o Sul vermelho. A notícia caiu que nem uma bomba no “Manuel da Leitaria”. A zona dos flippers comemorou, a zona da bisca lambida chorou. O agente duplo Pierre Pomme-de-Terre deu a notícia aos homens do Coreto, que já estavam de rastos com os acontecimentos no Pavilhão do “Jota Pimenta”.
- Os fascistas não podem ganhar a guerra, é injusto meu Deus, - gritou o Balacó pondo-se de joelhos junto a uma virgem meteorológica que tinha como vizinha uma vela acesa, para lhe manter em permanência a cor vermelha.

Episódio 8

O Poeta Fernindó

Os 120 anos da morte de Fernindó foram aproveitados pelas duas comunidades desavindas. Todos sabiam que na barraca dos herdeiros, filhos da meia-irmã (da cintura para baixo), havia cerca de 500 documentos, a maior parte bocados de papel higiénico com poemas, cromos, listas de gamanços e apontamentos diarísticos, todos em tom pastel numa das faces. O Sul pretendia levar tudo isto para o Comité Central e daí para a URSS, e o Norte prometia depositá-los no Núcleo Central do Chalé da Merda, a mais bem gerida casa da cultura da Costa do Estoril, o único lugar condigno na vila para receber toda a arte rupestre de Paço de Arcos. Pelo meio estava o sempre presente Pierre Pomme-de-Terre, figura central de todo o PREC da vila, que sabia do valor destes documentos, ou seja, nunca tinham sido inventariados por terem ficado de fora do arrolamento feito pelo ministro da Educação português nos finais dos anos 60, o Saraiva. Se levasse os poemas do Fernindó para o estrangeiro, vende-los-ia por uma fortuna. Foi por isso que contactou de imediato os agentes do Sul na Leitaria do Manuel e à noite já estava na cave do Coreto da Avenida.
- Camaradas venho aqui, mais uma vez, oferecer os meus préstimos à causa popular. Sei que estão interessados nos 500 pedacinhos de papel do grande poeta “paçoarquiano” e eu vim para vos ajudar a ganhar esta batalha. Tenho em minha casa uma arca onde poderão guardar, em segurança, os documentos.
- Obrigado camarada, você tem sido incansável na causa popular, - disse o Titó lavado em lágrimas.
- Eu pelo partido até dou a minha vida, - exclamou, esfregando as mãos.
Na Leitaria mais famosa da vila um novo residente apresentava-se à sociedade dos dois lados, com os olhos brilhantes.
- Eu sou o Alice, uma imitação do Cooper, e acabei de ser corrido de Angola pelos pretos. Trago novos ares para a vila, - e mostrou umas ervinhas. – Chamam-se “charros” e dão cá uma pedrada.
- Pedrada?!! Eu não quero violência no meu estabelecimento, - avisou o proprietário apontando para a tabuleta que tinha escrito “Lugar de Coexistência Pacífica”, que estava junto a outra que dizia, “Não se fia nem a Comunistas, nem a Fascistas”.
- Calma meu, “pedradas” sim, mas tudo numa onda boa! – Esclareceu a imitação do Cooper.
- Vêm para aqui estes retornados com linguagem de pretos! – Resmungou um Fascista, que foi de imediato apoiado por um Comunista.
A concentração ética e poética do que de mais fecundo havia em Paço de Arcos tinha um nome, Fernindó.
- A obra dele representa a cruzada da liberdade contra os tiranos, – disse o Pierre Pomme-de-Terre apontando o dedo para Sul, recebendo a concordância do Craveiro Lopes. – Venho aqui oferecer a V. Exa. os meus préstimos para uma “Pausa Cultural”.
- “Pausa Cultural”?!!
- O Norte e o Sul unidos pelo Fernindó. Se mantiverem a guerra os 500 poemas poderão desaparecer para sempre e ambos serão os responsáveis perante o povo.
A mensagem tinha passado, já se falava numa “Trégua Cultural” e um Capitão oferecera o seu andar para uma “Casa Fernindó”, onde se iria falar de poesia, literatura e exibir filmes da guerra colonial em Cabinda a adolescentes, uma imposição do militar.
- A minha guerra aos tenrinhos também é cultura, – explicou com uma voz de macho aos representantes das duas partes em confronto, que se tinham reunido na Leitaria.
- Os papéis poderão assim ser consultados e cheirados por todos, – disse o Ánhuca, mostrando os buracos que antes do 25 de Abril tinham estado ocupados por dentes.
- Vamos organizar uma mesa redonda, e o Escoto irá gamar uma das câmaras da RTP ao pai e transmitir a cessão para toda a vila, através da antena do Vasquinho, com a ajuda móvel do Jorge Monhé na sua acelera e do Zé Maria Pincel na Hércules, – interrompeu animado o Titó.
- Mas onde é que vamos arranjar uma mesa redonda? – Perguntou o João da Quinta, pondo o dedo no ar.
- Com a Revolução todas as mesas fascistas, que eram quadradas, passaram a ser denominadas redondas, – respondeu-lhe, irritado, o representante do Sul.
- Olhe que não, olhe que não! “Mesa Redonda” é um conceito marxista que nós repudiamos, – disse de rajada o embaixador do Norte.
- Eu proponho um projecto para a criação de uma “Revista Comum”em que uma metade é reservada ao Sul e a outra ao Norte. O nome será “Pica Hic”, – interveio o Capitão, pondo água na fervura.
- “Pica Hic”?!! Mas que nome tão pouco revolucionário, - interrompeu o Titó.
- Eu direi que é um nome apaneleirado, – exclamou o Ánhuca.
- Falaremos disso na “Mesa Triangular” que será realizada na sede velha do Clube Desportivo de Paço de Arcos, – informou o militar abandonando, um pouco irritado, a reunião.
O Comandante Guélas recebeu a notícia com agrado, pois iriam encher o território inimigo com dezenas de combatentes, tudo à conta da “Mesa Triangular” do génio militar que tinha vindo de Cabinda. O senhor Bakaus foi contactado para animar o evento e os convites entregues ao carteiro mais famoso da vila, o Kurtis, que se responsabilizou pela sua distribuição. E foi numa dessas ocasiões que deu de caras, já ao anoitecer com o Zé de Porto Salvo e o seu grupo de escuteiros.

Episódio 9

A Mesa Triangular

A câmara de filmar que o Escoto tinha nacionalizado ao pai, já só apresentava um “P” de “RTP”.
- “P” de proletariado, tudo agora é do povo, – explicava aos presentes.
O alcance da transmissão chegava aos dois símbolos de poder da Vila de Paço de Arcos: o Depósito de Água no Alto da Loba, no Norte, e ao Coreto da Avenida, no Sul. Foram convidadas as personagens mais relevantes de todo o concelho, incluindo o Zé de Porto Salvo e o seu grupo de escuteiros, que tinham violado o Curtis na noite anterior, a pedido deste. No Centro Comercial “Áries”, único em toda a Costa do Estoril, no espaço junto ao café-restaurante do Senhor Xantola, o Capitão tinha inaugurado uma exposição cujo tema “Os Lugares de Fernindó” convidavam o visitante a deixar-se guiar por uma colecção de fotografias, cedida pelo senhor Saul, o mais idoso “paçoarquiano”, que tinha participado na célebre “Guerra de Limões” entre Algés e a Trafaria. As imagens construíam cronologicamente todos os sítios por onde o poeta tinha defecado, as barracas onde vivera, os sacos de cimento que gamara em parceria com o guarda-nocturno. O poeta chegara a Paço de Arcos nos anos 20, após uma bebedeira monumental que apanhara no Cacém, e lhe derretera os neurónios de orientação, deixando-lhe uma “branca” em relação ao caminho de regresso. E a cultura da vila fizera o resto! Para os adolescentes pouco inclinados para estas manifestações intelectuais, o Capitão tinha posto à disposição o seu apartamento, onde prometia filmes de acção sobre Cabinda, pipocas e uma cama para os mais atrevidos.
Às 21 horas do dia 25 de Setembro de 1975, o senhor de nome Escoto carregou no botão da máquina e deu início ao primeiro encontro televisivo entre o Norte e o Sul. Meia-hora antes tinha havido um pequeno incidente entre dois dos presentes, um apoiante do Comité Central, o Titó, e outro um devoto do Guélanismo, o Todo Boneco.
- Agarrem-me, senão eu mato-o, – ameaçou o vendedor de jornais do “Avante”.
- Espera aí que já cospes, – respondeu-lhe o conquistador de bairro.
À medida que os convidados iam passando pelo tapete vermelho, vendido pelo Pieerre Pomme-de-Terre a preço de saldo, e gamado na sede dos escuteiros, as carpideiras da praça, alugadas pelo João Gordo, estavam num frenesi. O moderador chamava-se Maria, nome pomposo com figura de xungoso. E era menina.
- Acção, - gritou o Escoto, fazendo sinal com a mão.
- Boa-noite senhores telespectadores, – disse a xungosa com uma voz de bagaço, mostrando à vila a falta de dentes. – Estamos aqui a fazer jornalismo de excelência, os ventos da liberdade trouxeram o futuro a Paço de Arcos, hoje vamos falar de cultura, do nosso conterrâneo, do nosso poeta Fernindó. Todos têm os seus poetas, nós temos o Fernindó.
- O Fernindó é do povo, – gritou o Titó aproximando-se do microfone da Maria.
- Isso são acusações graves e o verbo é rasteiro, – acusou o Ánhuca, apontando para o adversário e conseguindo palmas de metade da assistência.
- Cavalgadura!
- Quem, eu? – Perguntou indignada a locutora.
- Não foi para a senhora, mas para aquele fascista do Norte.
- Nem a memória do Fernindó respeitam. A comunistada está a estilhaçar os cristais e as porcelanas da vila, que ainda sobram. O poeta é nosso, só nosso, – disse o Ánhuca, batendo três vezes no peito com o punho fechado.
- O 25 de Abril deu-lhe a liberdade de delirar em público, – atirou o Titó, enchendo a cara do seu camarada Balacó de perdigotos.
- O nosso glorioso Comandante Guélas há-de chegar até aqui, nem que seja à bomba.
A palavra “bomba” enervava o Sul. O ataque no Cine-Teatro, a dez metros daquele local, tinha-os traumatizado “olfactivamente” para sempre. Um simples odor a maresia era o suficiente para os obrigar a fugir.
O debate foi interrompido bruscamente pelo Marmota, o irmão do Pinguim e do Pingalim, que já não iria durar muito, mas não sabia.
- Os fascistas conspurcaram o muro da praia que o Comité Central reservou para as velhotas da nossa terra se bronzearem. Escreveram “Cantinho das Putas Velhas”.
- Abaixo o Fascismo, viva a Reforma Agrária, – gritou exaltado o Titó, pondo-se em pé na mesa.
Mal sabia ele que a câmara de filmar tinha dado o berro e que o Escoto fingia que estava a transmitir. Não muito longe dali, o Craveiro Lopes já tinha aviado dois secos e um molhado na Quitéria Barbuda, acusando-a de estragar a televisão e de o impossibilitar de ver o debate. O barulho ensurdecedor das hordas fanatizadas dos fascistas do Norte entoando o seu hino “É Motorista”, letra e música do grande Charlot, envolveu a sala e foi o sinal para mais uma carga de Litopol. O produto já borbulhava no saco, quando os servos do Comandante Guélas abandonaram o local e foram fazer uma visita de cortesia à Mercearia “Aveirense” de Silva & Sousa Lda., Rua dos Fornos, nº 17ª/17B e 17 (números em metal) ou 17/17ª e 18 (números a tinta). Cinco minutos depois já todos corriam em direcção ao Norte, levando nos bolsos rebuçados do Doutor Bayard, Sugus, Chocolates “Sombrinhas”, queques, amendoins, favas fritas, Vinho Rosal, Rebuçados “Bola de Neve” e pastilhas “Gorila”, e tudo o mais que veio à rede. A única pista foi dada por uma testemunha anónima que viu um indivíduo, às três horas e dez minutos, com um caixote de produtos à cabeça, junto à linha do comboio. Consta que era o célebre Focas das Docas!
O assalto do Norte à Mercearia do Povo, de onde tinham gamado todas as pastilhas “Gorila”, tinha deixado o Sul de rastos e já havia registo de dissidências. A zona do Jota Pimenta, junto à Escola Náutica, tinha-se organizado na “Associação Popular Maria Armanda”, que adoptara como hino “Eu vi um sapo”, e proclamava agora as virtudes revolucionárias da sua mártir com cara de sopeira, por todos os cantinhos do bairro.
- Temos de conter a fúria popular, – avisou o Titó aos camaradas reunidos de emergência na cave do Coreto. – Eles andam a mostrar ao povo um adivinho de nome Zé Preto, que faz prognósticos sobre o futuro, que é muito negro para o nosso lado.
- Esse bruxo é um impostor do Norte, camarada, – interrompeu o Balacó. – Anda para aí a dizer que um tal de Aníbal, que anda a cavar batatas no Algarve, irá ser Presidente da República.
Mas o caso era grave, muito grave, porque senão a Dona Maria das Bicicletas não tinha aparecido de rompante no Coreto, ficando encravada na porta. Bastou o busto para intimidar os camaradas.
- Sabem onde fica a Sibéria? É para lá que vão senão meterem o povo em ordem.
O talento tribunício do Ánhuca ecoou por todo o Norte, mostrando o seu talento e agilidade, e a energia invencível do mito.
- O povo do Sul “está desordenado e é fraldiqueiro”. O do Norte ruma à vitória. O nosso lema é “ética de trabalho, secura de verbo e abundância de lágrimas”. “A vida é rápida, desavinda e selvagem”, gritava, ao mesmo tempo que ia soletrando os números 39, 69 e 74 das Pastilhas “Gorila”, colecção “Frases Célebres”.
Era uma reacção inconsciente às mudanças que se verificavam na sociedade no que se referia aos costumes sexuais, com a emancipação das ovelhas. O Titó gritava que a Lanzuda era do povo e prometia vir um dia tirá-la das mãos dos fascistas. Estes discursos inflamados com promessas de sociedades opostas denunciavam a cisão profunda que a Revolução dos Cravos tinha feito neste cantinho da Costa do Estoril. Foi tudo isto que levou o Capitão Porão a abrir um apartamento de psicanálise para adolescentes, tentando com isto minorar os estragos causados por um acontecimento imprevisto. Ele tentava manter os pequenos imberbes longe deste conflito entre a superstição e a crendice do Norte, onde os valores e os seus instrumentos de poder não podiam ser postos em causa, e a “cientologia” e a fé do Sul, que proibia proibir.

Episódio 10

 

A Caixa do Alice

 

A transacção comercial foi rápida, o senhor Alice acabara de vender um charro à Maria, a locutora da “Mesa Triangular”. Desde que tinha aparecido na televisão julgava-se uma artista de renome, como a mãe, e por isso marcara para a tarde um comício na parte de cima do Coreto. Os cartazes feitos de cartolina comprada na “Dáni”, ostentavam letras pretas escritas a ponta-de-filtro, gamadas ao Professor Coelho, que a anunciavam como a “Passa-visionária”, que a extrema-esquerda transformou em “Passionária”, porque dizia ter visões de cada vez que dava umas passas, ficando nessas alturas com outro tipo de inteligência. O seu mandatário era um peso pesado da política, o Pedro da Avozinha. Mas havia concorrência. O senhor Tubarão, também cliente assíduo do Alice, apresentara-se na linha de partida para a conquista do cargo mais cobiçado da vila e das redondezas: Governador do Chalé da Merda, o edifício para onde confluíam todos os dejectos dos “paçoarquianos”. O nome do mandatário cilindrava os outros, Pórki, cujo currículo ostentava o noivado com uma sobrinha preta do Sá Carneiro, que nascera em Trajouce a sonhar com Cascais. Vindo de Caxias apresentou-se no “Manuel da Leitaria” o senhor Alpedrinha, um coleccionador obsessivo de caderninhos onde anotava os superlativos dos adversários. Ao senhor com cara de porco disse ser um excelente detector de mentiras, mas o Pórki iria ser apenas um condimento escasso, pudico e enganador, de uma candidatura que se perderia em combates exaltados. Os charros do Alice tinham aberto a caixa com o seu nome. Entretanto apareceu mais um concorrente, o Pingalim, que não queria ficar para trás e após um dos maravilhosos cigarrinhos disse ser a reencarnação do Fernindó, despejando sobre os presentes um discurso que revelava um amargo dilema ontológico de adolescente, trazendo como mandatário o senhor Cocciolo, que foi ainda menos convincente que o candidato: prometia restaurar todas as aceleras da vila e oferecê-las aos deficientes mentais. Formou-se uma fila interminável de potenciais ganhadores, que teve de ser rapidamente desmobilizada pela autoridade máxima da região, o Chefe Bigodes. Na vila avultavam agora agitadores caxienses, guerrilheiros de Trajouce, recentes marxistas de Porto Salvo, nacionalistas oeirenses, militares de Algés, queques da linha e raparigas de bigode a fumar Definitivos. A época era única e tudo graças ao 25 de Abril de 1974. Num dia uma mesma pessoa podia ser cúmplice ao acordar, vítima ao almoço e adormecer carrasco. E graças à descolonização que tinha corrido com o inescrupuloso Alice, e as suas ervinhas mágicas, de Angola, a gloriosa vila de Paço de Arcos encontrava-se agora num estado arrebatador de exaltação febril e desconhecida. A morte, as pulsões e as paixões mais recônditas estavam a invadir Paço de Arcos, neste “Ano da Glória de Nosso Senhor de Mil Novecentos e Setenta e Cinco”. A vila estava confusa, fragmentada e caótica. A epidemia viral dos Capitães de Abril representava a necessidade de um castigo divino e da possibilidade de uma contaminação vermelha. E na Serra do Maestro Guélas estava a cura, a chave da felicidade eterna que prometia abrir as memórias das existências passadas, guardadas num nicho especial por gente escolhida a dedo: Ánhuca, Manelinho do Estrume, Craveiro Lopes e Quitéria Barbuda. Os do Sul tinham medos inatos e recalcados no mais íntimo de si, e era por isso que reclamavam a igualdade para todos os Paçoarquianos. . Eles eram um bom retrato psicológico do estado de espírito e mesmo da saúde mental desta comunidade de Paço de Arcos.

Episódio 11

A Última Exposição do Século

Com o aparecimento dum Pub no Centro Comercial “Áries” em frente à estação da CP e a vinda do jovem Capitão da 5ª Divisão, que fora um rapazinho flor de estufa, apaparicado e reprimido, que estudou num colégio de freirinhas espanholas, veio o termo “randevu”, que recauchutou os termos do Antigo Regime, “meretrício” e “proxenetismo” de Puta para Senhora Puta. O Centro Cultural de Paço de Arcos reagiu de imediato com a exposição “Grandes Paçoarquianos”, uma parceria Norte/Sul em defesa da razão e dos bons costumes. As portas abriram-se no dia 11 de Setembro de 1975.
Ao entrar no “Chalé da Merda” o visitante apercebia-se de um ambiente condizente. Ao longo das oito salas desenhavam-se os perfis dos génios da terra, com as suas obsessões e angústias, glórias e dificuldades coevas e póstumas. O primeiro a aparecer era o esqueleto do Fernindó brigão e o seu cão ensimesmado, o Cardoso, transformado em tapete desde o dia 25 de Abril de 1974, quando o João da Quinta apareceu na rua, para impressionar a Isaltina, montado numa Chaimite. Na sala ao lado estava o Chico Americano e a sua famosa bicicleta que ostentava uma bandeira vermelha, que representava a capacidade de sobreviver a todas as reviravoltas revolucionárias. O Centro Cultural estabelecia bem o elo entre a produção artística e o contexto histórico, factores importantes para enquadrar a vila. Na sala número três, da responsabilidade do Norte, estavam dois bonecos de cera que representavam o casal mais mediático da vila, do antes e do depois da Revolução dos Cravos: Craveiro Lopes e a sua Formosíssima e dulcíssima Quitéria Barbuda, na cena mais marcante do seu casamento, uma oferta da Paróquia após uma sugestão do acólito Xinoca, o único chinês da vila, em que o marido tentava acertar com uma cadeira nos cornos da mulher, depois de ter prometido amá-la e respeitá-la, como o tinha feito durante quarenta anos de vida em comum na barraca da Terrugem. O contexto estético era dado por uma pirotecnia sonora sob a forma de sombras chinesas a levantarem as pernas. Logo de seguida o visitante era confrontado com um Titó em barro, na sala reservada ao Sul, vendendo os seus famosos “Avante”, tendo por fundo uma grande fotografia da estação de Paço de Arcos, onde aparecia a um canto o estudante Focas a arrear um dos seus famosos cagalhões. Na sala cinco a figura imponente do siderante Capitão de Abril, o Porão, feita em cartolina pela Escola de Vela do Clube Desportivo de Paço de Arcos, uma forma de agradecimento pelos incontáveis lanchinhos com que ele presenteou os velejadores masculinos da classe “Optimiste” durante os largos meses de agitação, tendo ao pescoço uma réplica dos binóculos com que se deliciava a ver o Chico Sá de cuecas lá para os lados do Jota Pimenta, gamados pelo Tonico para ir comprar uns charros ao Alice. Vivia-se nesta altura o auge da epidemia, com diferentes camadas de adolescentes tentadores. A sala seguinte era a mais espaçosa do Centro, e representava a glória nacional, através do bombeiro Álhi esculpido num barrote com cimento, dentro de uma gruta, desdenhando o “fogo que ardia sem se ver” (Fernindó), com um ar negligée, lutando titanicamente para salvar uma bilha de gás. O resto da acção era contada numa parede ao lado, grafitada pelo Focas a castanho. O Álhi usava a astúcia para não causar o pânico, quase fizera em farrapos o seu blusão que ostentava orgulhosamente “Bombeiros Voluntários de Paço de Arcos”, tendo conseguido aguentar a indiferença dos colegas. Gritou com truculência, lirismo e imaginação contra o “fogo que ardia sem se ver” (Fernindó) mas já lhe consumia as cuecas. Mas por fim chegou à bilha e ao mesmo tempo que a arremessava do sétimo andar contra a multidão, deu o famoso “berro do Ipiranga”:
- Cuidado com as cabeças!
Na sala sete um alemão feito de sabão “Macaco”, com uma peixeira sentada no seu colo, sendo idolatrada na sua beleza, mostrando que por detrás da Tita dos Pés Sujos estava sempre o Bajoulo, convidava o visitante a uma pausa fresquinha, com o patrocínio exclusivo do restaurante “O Tino”. Quem se sentasse à sua mesa tinha direito a uma imperial, ao mesmo tempo que puxava um cordelinho para ouvir as palavras do sábio:
- Sou uma esponja que se impregna e depois expulsa.
E finalmente na sala número oito aparecia a figura do fora-da-lei e falsificador, o ser humano mais complexo da vila, o marquês Pierre-Pomme-de-Terre, vestido com um elegante fato de sapateiro viúvo, com um soberbo relógio de bolso da marca “Roskof”, despedia-se dos visitantes e agradecia-lhes o tempo de aprendizagem e sabedoria que tinham dispensado à cultura da vila:
“ O que me agrada e me inspira na vida, torna-se um objectivo para mim. A figura de Fernindó sempre me perseguiu. Vejo-o como um poeta, um louco, um profeta, um mistério indecifrável. E no entanto ele considerava-se um trapezista” (últimas palavras antes de se pirar para o Brasil com a Interpol atrás).
Nesta última Exposição do Século da Cultura Paçoarquiana, realizada no ano de 1975, a encenação das oito maravilhosas salas do Chalé da Merda teve como tema o “Eterno Retorno”, que distinguiu o trigo do joio e afirmou o óbvio, ou seja, que a obra do Comandante Guélas pouco ou nada tinha a ver com o espírito do tempo. A vila, principalmente a zona Sul (abaixo da linha do comboio) estava mergulhada num “cocktail” estético composto de miúdas com bigode, adolescentes de boinas vermelhas, crianças que se aliviavam para os cartazes da “Maioria Silenciosa”, candidatos descartáveis e principalmente recicláveis, para satisfação do Comité Central, que descaracterizavam o espírito de uma região que um dia aclamara o seu herói Patrão Lopes, nome mais tarde dado pelo poeta Charlot ao seu inigualável rafeiro, que teve o seu eterno repouso aos pés da estátua da Avenida. O conteúdo das salas deste Centro Cultural “levou os jovens arautos da época a imaginárias leituras políticas, feitas por pseudo-moralistas de pacotilha, de braço dado com apóstolos despersonalizados com uma consciência primitiva” ( in “Cronista após um charro”, Ratinho Blanco, Edições Alice). Foi a representação simbólica de um estado avançado de composição cultural, que estava ameaçado pelo colapso de um estilo de vida e de ordem política que o Norte rejeitava.
- Prefiguro um apocalipse iminente, – disse o Comandante Guélas na véspera do Dia D, o desembarque dos aliados na Praia Velha.
- Nunca tão poucos irão dever tanto a muitos, – profetizou o Craveiro Lopes ao entrar, na praia de Caxias, na chata com o nome “Rissól”.

Episódio 12

O Electricista


Quando o assunto dizia respeito à imagem da vila de Paço de Arcos as diferenças entre o Norte e o Sul desapareciam e ambos uniam esforços pela terra. Em 1975 os filmes indianos esgotavam o Cine-Teatro, o Marreco da Projecção não tinha mãos a medir, e no fim de cada sessão meia sala estava a chorar e a outra a disfarçar o ímpeto para fazer o mesmo. Foi nessa altura que se deu a conhecer o senhor Ginja, o mais imaginativo agente cultural de todos os tempos, que se apresentou no Chalé da Merda com o argumento para um filme indiano com um monhé paçoarquiano, o Jorge. Para título propunha “O Electricista”, concorrência directa com “O Mecânico”, de Charles Bronson. Prometia uma catadupa de imagens gráficas, muitas caleidoscópicas. O director do espaço cultural na altura era o Carlos Anão dos Suspensórios, que acumulava com o de Presidente do Futebol Clube de Paço de Arcos, uma instituição milenar com dois campos de matrecos e um espaço que acumulava Sala da Presidência e WC. De cada vez que um sócio desejava vazar águas, o anãozinho tinha que sair. As filmagens do “Electricista” com o Jorge Monhé no principal papel iniciaram-se sob um sol abrasador nas Fontainhas, o local mais in da vila, onde a maioria da população pós-25 de Abril fora concebida. A história passava-se em 1917 com a partida da Segunda Divisão do Corpo Expedicionário Português para a Flandres, da Praia Velha outrora a exclusiva do rei. Nele iam em representação da vila os cabos Jorge Monhé, o galã e Zé Maria Pincel, que ia para a guerra por ter uma dívida para com o mecânico Cabrita. A comandar este temível destacamento ia o Tenente Bajoulo. O herói desta longa metragem depressa se revelou um homem do futuro, pois foi para o campo de batalha com todos os seus acessórios: pilhas, busca-pólos, lâmpadas para lanternas e um transístor. Como realizador o Ginja mostrou ser único, tendo alterado a história, pois a vila necessitava urgentemente de heróis. Três paçoarquianos que incluíam um electricista de nome Jorge Monhé puseram em debandada os 55 mil homens das oito divisões do 6º Exército Alemão, na batalha de La Lys, no dia 25 de Abril de 1918. A cena que mais marcou a geração paçoarquiana dos pós – Revolução dos Cravos foi quando o cabo Zé Maria Pincel acertou na cabeça do general alemão Ferdinand Von Quast com um martelo, depois de se ter irritado com a sua Zundapp que não queria pegar. O general inimigo ficou a cagar fininho atrás de uma trincheira, cena considerada de sexo explícito, mesmo naquele tempo de todas as liberdades, e como tal censurada, tanto pelo Norte como pelo Sul. Quanto ao Tenente Bajoulo, que falava alemão, conseguiu apanhar o responsável pela ofensiva adversária, o Erich Ludendorff, e ameaçou meter-lhe pela boca abaixo um par de meias do Ánhuca, trazidas expressamente da sua pátria bem amada, se ele não mandasse retirar as suas tropas. Isto provocou um grande desânimo nos alemães, proporcional ao caso do “mapa cor-de-rosa” com os portugueses, levando a insubordinações, deserções e suicídios. De notar que o 11º Corpo Britânico já tinha fugido uns dias antes. O filme acaba em apoteose com os três heróis numa colina, todos a tentar pegar, de empurrão, a Zundapp do Zé Maria Pincel para poderem regressar à pátria. A câmara dá uma volta de 360 graus. Para que o feito destes homens ficasse para sempre enraizado na memória das novas gerações, e fizesse efeito lá para o ano de 2008. Mas, infelizmente, as ervas do Alice é que nunca mais foram esquecidas. Durante alguns anos o mimetismo entre as personagens e os espectadores podia ser visto no fim das sessões e já fora do cinema, com a garotada a divertir-se em lutas simuladas de Kung-Fu, misturadas com cavalinhos em “peidociclos”, numa disputa entre “Fameis”, “Zundapps” e “Casal Boss” do Sul, e as “Yamahas”, “Suzukys” e “Hondas” do Norte. Com o fim da fita abriraram-se novamente as hostilidades entre aqueles que queriam o poder absoluto da vila, e cada um ocupou o seu lugar na rua. A separar as duas claques estava o Alice que tinha clientes em todos os sectores do pensamento, e prometia que as suas ervinhas era para “animar a malta”. Junto à sede velha do Clube Desportivo de Paço de Arcos o senhor Charlot saltou para cima do mini branco do Capitão e entoou o hino do Norte, o “É Motorista”, acompanhado por dúzias de fanáticos do Comandante Guélas. O aparato policial junto à nova loja de desporto desviou as atenções políticas de todos os manifestantes e obrigou o Titó, que se preparava para contra-atacar com “Eu vi um sapo”, hino do Sul, a correr para o local. Tudo o que fugisse à rotina poderia ser uma oportunidade política.
- Os fascistas atacaram e saquearam uma loja, – gritou dando início ao boato. – Mas estão encurralados lá dentro pelo povo. Abaixo a reacção.
- Abaixo a reacção, – disse em coro parte da populaça.
- Foi nisto que deu a revolução, acabou a segurança, - disse uma voz saída de um megafone. – Só o Comandante Guélas é que vos dará a segurança. Dentro da loja estão terroristas social-fascistas.
Ao comando das operações estava o Chefe Bigodes que tinha cercado o local e obrigado os larápios a permanecer no interior do espaço comercial. Quando viu que no meio da multidão estava o seu inimigo juramentado, o Mac Macléu Ferreira, estremeceu e pôs a mão na pistola.
- Calma, calma, Cabeça-de-Giz, – disse para si próprio. – Agora não é a altura de confrontos. A tua missão é deter os bandidos que estão dentro da loja e não multar o caixa-de-óculos loirinho.
A situação estava a descontrolar-se. Cada vez ia chegando mais populaça e o espaço estava a ficar curto. Uns acusavam os ladrões de fascistas, outros de comunistas. Ora se ouvia a palavra MIRNE, ora as palavras Brigadas Vermelhas. Quando a cena parecia estar a descambar para a violência, o Chefe Bigodes lançou um ultimato aos ocupantes:
- Ou se rendem, ou atiro para aí umas cuecas do Bajoulo e umas meias do Ánhuca. Têm cinco minutos para se entregarem.
Nem um segundo foi preciso. As portas abriram-se com estrondo e saíram de lá o mano do Janeca (do Norte), o Pingalim (do Sul), o Tubarão (do Norte) e o Grilo (do Sul), cada um com um par de ténis do lado direito em ambos os pés, outra coisa não seria de esperar de um mostruário de uma loja de desporto.

Episódio 13

O Desejado


O Focas sempre esteve ligado à rua e foi aí que se revelou a sua criação gráfica. Uma dor de barriga súbita obrigou-o a agachar-se junto a um muro acabado de caiar e a inspiração veio-lhe sob a forma de um relâmpago. Agarrou na ponta de filtro preta que tinha no bolso e desenhou a figura mais portuguesa de todos os tempos, um “malho das Caldas”, que na vila de Paço de Arcos era enfeitado com penugem nas rodas. E como o produto estava a demorar tempo a sair, devido ao tamanho descomunal, daí as cólicas, escreveu em cima “Viva o Comandante Guélas”. Foi o início de uma guerra sem escrúpulos, em que se pretendia ser melhor do que os outros, estar em mais sítios, fazer graffitis maiores e mais bem feitos.
“A terra a quem a trabalha, mortos para fora dos cemitérios”, escreveu o Balacó a carvão na parede da estação, enquanto esperava pelo “verde” que vinha do Cais do Sodré com os jornais do “Avante”.
“Lagostas para a Sibéria já”, disse o João da Quinta na parede do restaurante “Os Arcos”, mostrando que estava um pouco confuso em termos políticos.
O jovem e turbulento regime republicano do pós-25 de Abril de 1974 evoluía no teatro político português e “paçoarquiano”. Na praia da vila estava agora estacionado um autocarro de dois andares que dava apoio às meninas finas do Jota Pimenta e seus amigos, principalmente marujos da Direcção de Faróis que andavam em roda-viva , pois o comandante dormia a noite toda e proibia-os de o acordarem, mesmo que “houvesse uma nova revolução”. A guarda era feita no autocarro com a pistola sempre à mão. E foi numa manhã de nevoeiro que tudo se precipitou. Mas recuemos no tempo. O Charlot tinha resolvido ir acampar, à semelhança dos amigos no Algarve, e foi até onde as posses o permitiram, ou seja, a praia de Paço de Arcos. Levou dois cobertores, um para fazer de tenda e outro de cama, onde se deitou também o Lopes para lhe aquecer os pés. Pelo caminho resolveu ir a Vila Fria visitar a mãe e primeiro deu de caras com a vizinha, a Piedade, cujo corpo já não lhe dava lucro, mas sim prejuízo. Cumprimentou-a apalpando-lhe as mamas, mostrando que a meteorologia da sua alma era tão instável como o clima. Foi o descalabro. Choveram paus, pedras e tudo o que viesse à mão, incluindo um frango, obrigando o senhor Charlot a uma retirada estratégica, que só parou junto à tenda, ainda a tempo de ver o Sol a pôr-se. E estava tão cansado que nem acabou a lata de sardinhas em tomate, tendo caído em sono profundo. Foi acordado abruptamente a meio da noite por um estrondo seco e uma luz vermelha intensa. Espreitou e viu quatro vultos no areal, um deles metade de todos os outros, que reconheceu como sendo o Trovão, enquanto que da sua direita aproximava-se do grupo um desconhecido em passo acelerado e com uma pistola na mão.
Noutro canto da vila realizava-se o Campeonato Norte / Sul de ping-pong, mais propriamente na sede do Futebol Clube de Paço de Arcos. Os dois matraquilhos carunchosos tinham sido transformados em soberbos campos da modalidade escolhida para o dérbi político, depois de lhes terem colocado em cima várias madeiras desviadas pelo Todo-Boneco da obra para onde costumava levar as moças que serviam nos chalés da burguesia. A fazer de rede estavam pedaços retirados de uma arte de pesca da Praia Velha. O Norte tinha trazido uma equipa de peso que ameaçava lançar um “vómito ácido em estado puro” e o Sul prometia esmagar “os fascistas”. Apresentou-se vindo directamente do Grupo Coral Vermelho da Porcalhota o Cara-de-Cavalo, que prometia estar atento às “manhas da reacção”. Todos foram revistados à entrada, os sacos de plástico da “Casa do Adro” ficaram na rua, para evitar o terrível “Litopol”. O futuro anfetaminado Janeca prometia “mão pesada para os patetas dos vermelhucos”. Era uma época em que ainda se acreditava ser possível inverter o caminho da vila, que se estava a converter num sítio muito complicado. No lado esquerdo da mesa número um estavam os sociólogos internacionalistas e do lado direito da mesa número dois os sociólogos moralistas. Pelas ruas do país o exército desconjuntado e desmoralizado era o que esta gente precisava. A um canto da sala um casal digladiava-se por amor, agrediam-se de cada vez que o macho dava um gole na cerveja. Ele era o Bajoulo, um ser que desejava misturas, que vivia em contradição, repartido entre as suas loirinhas e a amada Tita dos Pés Sujos, sendo um dissidente de si mesmo, sem paz interior manifesta. A namorada acusava a cevada como a principal responsável pela falência do corpo do seu príncipe.
- Eles foram criados em territórios insólitos e banais, – gritou o Titó, mostrando que as palavras eram sempre as mesmas, mas o estado de alma nem sempre. – Os fascistas não sabem jogar ping-pong.
- Nós prometemos um “Novo Paçoarquiano”, – gritou o jogador loirinho que vivia no Sul, mas desejava ardentemente o regime do Norte, tirando do bolso duas bolas cor-de-laranja com que pretendia iniciar a partida contra o Balacó.
Fez-se um silêncio ensurdecedor, que foi quebrado minutos depois pelos gritos ensandecidos de um Titó à beira de um ataque de nervos.
- Bolas fascistas do PPD, eles nem as regras democráticas respeitam.
O puto loirinho tentou explicar que o pai as tinha trazido de Espanha mas foi em vão. Voaram as mesas, o presidente anão com suspensórios refugiou-se na sala a ele destinada, que estava ocupada pelo Todo-Boneco e por uma das suas fabulosas sopeiras, exploradas pelos burgueses do Norte, e devido à confusão foi lançada uma carga dupla de “Litopol”. A partir daí o nome de guerra do jogador de ping-pong da selecção do Alto de Paço de Arcos passou a ser Laranja e a acompanhar para sempre no coro o grande trovador Charlot, até que a morte os separasse.
Quando o marujo, que estava de plantão na Direcção de Faróis, viu a luz vermelha de SOS lançada pelo Trovão, o adolescente mais pequeno da vila, levantou-se de imediato da mesa, atirando com as cervejas para o chão, e abandonou o autocarro-bar, ao mesmo tempo que puxava da pistola de guerra.
- Mãos ao ar, quem se mexer morre, – gritou quando estava a cinco metros do grupo.
- Mas quem é o senhor? – Perguntou o Carlos Pontas atirando a beata para os pés do intruso.
- Sou a autoridade marítima desta zona e presenciei o lançamento de um artefacto proibido por lei.
- Mas nós não lançámos nada, – explicou o pequeno polegar, mostrando as mãos, sendo secundado pelos amigos.
- Foram vocês, eu vi, – insistiu o militar, cambaleando.
Quando tudo já parecia estar resolvido, eis que chega o Chico Sá acompanhado do Peidão, vindos directamente das Fontainhas:
- Não vimos nenhumas ratas, - explicou o primeiro, abanando a espingarda de porção-de-ar “Diana 38”.
- Alto e pára o baile, mãos no ar ou eu metralho, – gritou de novo o marujo, cambaleando mais uma vez. – Foi com essa arma que vocês atiraram os projécteis e por isso vão ser detidos no meu quartel.
- Mas os projecteis não cabem no cano, – tentou explicar o Peidão.
- Isso é irrelevante, em frente marche, – ordenou o marujo apontando o pistolão.
O Titó tinha por lema que delitos típicos da “decadência capitalista” nunca ocorreriam nos territórios do Sul. Devido a isso as mulheres apresentavam enormes bigodes e descomunais sovacões, desde que o Comité Central declarara a depilação como um acto burguês. Assim, este chefe máximo do poder de Paço de Arcos de Baixo exigiu que no torneio usassem raquetes de madeira e que o sorteio fosse feito pelo Anão-de-Suspensórios, o Presidente do Futebol Clube da vila, autoridade máxima daquele espaço desportivo, uma amostra de homem cuja sabedoria era feita de curiosidade e cultura, adquiridas quando ia a cavalo da mota do pai, dentro da caixa da fruta. Quem falava com ele aprendia e descobria que tinha como profissão cuidar dos seus fantasmas. Foi buscar a caixa de charutos onde tinha guardado o dinheiro das quotas e reparou que estava vazia e que o cobrador corou de imediato.
- O dinheiro está num sítio seguro, – justificou-se o Pierre Pomme-de-Terre. – Com este tipo de gente nunca se sabe o que poderia acontecer.
Quando o Sol se preparava para nascer, o turista de nome Charlot teve necessidade de evacuar e escolheu a beira-mar. A praia estava vazia e o nevoeiro que a cobria era uma boa camuflagem. Abriu uma cova e agachou-se. Quanto ao Lopes, sentou-se junto ao dono e ficou a observar as gaivotas. Nesse momento os prisioneiros tinham acabado de ser soltos, e o marujo iniciava a sua ronda com os binóculos. Parecia ter um ódio por si mesmo, porque só ele aceitava ter como comandante um militar que passava a vida a dormir e proibia que o acordassem. De cada vez que surgia uma ameaça ao quartel, tinha de ser ele a resolvê-la, e por isso o espaço para os copos era mínimo, mesmo nestes tempos de revolução em que a palavra era farta, mas de pouca valia. Quando a figura do Charlot e do Lopes apareceu, envolta em nevoeiro e aumentada pela luz da madrugada e pelos vapores do álcool, veio-lhe à memória a história do rei português que tinha desaparecido lá para os lados de África, deu corda aos sapatos, abandonando para sempre a “carreira marítima para o Seixal”.

 

Episódio 14

A Invencível Armada

- Nunca tão poucos irão dever tanto a muitos, – profetizou o Craveiro Lopes ao entrar, na praia de Caxias, na chata com o nome “Torpedo”, propriedade do patriota “paçoarquiano” Horta, posta à disposição das forças do Norte.
Sentou-se na proa e contemplou o sumptuoso cenário que lhe provocou de imediato uma sensação de absorção, que mostrava que não era indiferente ao local. O balançar do iate nas ondas fazia um som e ruído, ruído e música, música e voz, voz e “É Motorista”, o hino da liberdade, sinal divino da eminente vitória dos Aliados, que iria reforçar a carga sexual do Comandante Guélas. O agora Almirante Craveiro Lopes encontrava-se numa espécie de transe, pensando nos deserdados e explorados que iria salvar da obsessão social pelo culto do corpo, que os inimigos tinham imposto ao seu povo. Após aquela estranha revolução do mês de Abril, a beleza da mulher passara para um banho mensal, os pêlos andavam em roda livre, descuidavam-se durante o acto sexual e tinham ordens do Comité Central para irem até aos dez camaradas na mesma sessão. A sua armada iria desafiar os deuses vermelhos para com isso trazer o saber à vila. Foi acordado pela saída intempestiva do ar pelo pipo do Repimpa que estavam a encher.
- Almirante, temos um problema, - informou o Piloto Olho Vivo aproximando-se do “Torpedo”.
- O que é que se passa?
- O Repimpa que comprámos nos Armazéns “Grandella” tem um pipo marado.
- A armada parte dentro de meia hora e o “Carapau Cocciolo” faz parte dela. Desenrasquem-se! – Gritou o “Almirante Sem Medo”, como se auto-intitulou, mostrando que os muitos “penaltys” no "Papagaio" lhe tinham criado “músculo no estômago”, tão útil para situações como esta.
Caiu de novo nos pensamentos nostálgicos do passado e reviu-se à “chinchada” na Quinta do Leacoke, com o seu colega e amigo da primeira classe, o Titó. Tinham de dominar as fragilidades, os medos e as inseguranças, para assim poderem atolar-se nas nêsperas do José da Vacaria. Pela cabeça passavam-lhe momentos e mais momentos, enquanto os seus homens aprontavam mais uma barcaça e fixavam-na ao fundo com uma poita. Agora estavam em campos opostos, prontos a enfrentarem-se. A Dona Maria das Bicicletas encontrava-se numa tertúlia político-literária no Coreto, quando recebeu a informação do Anão-de-Suspensórios. O desembarque dos aliados do Norte iria ter lugar na praia de Paço de Arcos, tal como a visão do Desejado profetizara. O nevoeiro que invadira a costa era a confirmação. O passeio junto à marginal ficou despido de calhaus, os chamados “Pombinhos Brancos”, que foram amontoados a um canto, prontos para serem despejados sobre o invasor.
- Agarrem-me senão vou-me a eles, - gritou o trotskista com mais dioptrias do Jota Pimenta, o Bill.
- Calma camarada, calma, os fascistas ainda não chegaram, - explicou-lhe um “freak” de nome Taka Takata, agarrando-o pela camisola. – Eu é que estou “ganzado” mas tu é que tens as visões, ó meu.
- É das lentes camarada-meu, são das mais baratinhas, fundos de garrafa. Mas o Partido já prometeu para breve a ocupação do oculista, e depois dá-me umas lentes burguesas.
Numa praia a montante o Almirante Craveiro Lopes preparou-se para dar a ordem de partida, o Navio Almirante emprestado por um patriota já tinha o motor Yamaha de quatro cavalos a roncar e os cabos de reboque presos aos outros navios de guerra.
- Nesta viagem vamos descobrir a beleza e a magia que existe em nosso redor, - disse o cronista Alpedrinha, dando aos remos e olhando embevecido para o esgoto que cercava a esquadra e a conduzia em direcção à vitória.
- Este cheiro a maresia excita-me, - exclamou o pequeno Horta, chicoteando os cavalos. – Lisboa tem o lendário Trancão, mas nós não lhe ficamos atrás com os filhos do Jamor.
À medida que a Invencível Armada ia lentamente avançando rumo ao inimigo, as paisagens encantadoras sucediam-se em catadupa. Como já era seu hábito, o marujo Charlot levava os pés dentro da água, que tanto amava e o inspirava.
- Está quentinha! – Elogiou, mostrando ter tido fortes influências do impressionismo no passado, sobretudo do Álhi. Mas agora parecia estar mais ligado ao abstraccionismo lírico, tinha ficado mais tridimensional com a Revolução dos Cravos.
- Não tarda nada, cantas, – profetizou o Zé Preto, mostrando que o Norte era multiétnico. – Gosto sempre de assistir à ressurreição do Sol, – disse o Trovão apontando para a Lua.
Quando passaram em frente à Torre do Relógio, o nevoeiro abriu um caminho até ele, e mostrou à Invencível Armada a silhueta imponente da Quitéria Barbuda, que escolhia sempre onde queria aparecer, e que estava ali para saudar os guerreiros do Comandante Guélas. Ao seu lado estava o Barão Pierre-Pomme-de-Terre que sabia que se avizinhava uma guerra e que era preciso escolher o lado a que se pertencia. Era este o seu grande dilema. Mas como empresário o melhor seria ter um pé no Norte e o outro no Sul. Por isso apresentou-se aos dois líderes como um “infiltrado da melhor qualidade”, profissão que lhe dava total independência e liberdade criativa, sem pressões de qualquer ordem. De repente um raio, vindo dos lados do Bugio, tombou na cabeça do Alpedrinha, foi-lhe até aos ossos, e saiu pelo ouvido esquerdo, tendo ainda tempo para acender o cigarro que o Charlot acabara de pôr na boca. Por momentos todos pararam e ficaram a olhar para o cronista, que fazia argolas de fumo com a boca. Subitamente começou a verter para o caderno, como se tivesse aberto uma via directa do caldeirão de pesadelos do seu subconsciente, um turbilhão de caracteres chineses que depressa esgotaram as folhas pautadas, obrigando-o a continuar pela bordo direito do barco, assim o obrigavam as mais tensas vibrações mentais.
- O barco, ele vai escrever-me o barco todo, - gritou o Horta atirando com o escritor pela borda fora.
Anos mais tarde esta enseada acabou por ficar conhecida como a Praia da Sereia Fascista, porque alguém do Sul, a espiar as movimentações da Marinha do Norte, disse ter visto uma sereia a declamar violentamente em cima de uma rocha em Ladino. Os ecos da invasão agitaram as mentes dos sulistas e puseram em alerta as gentes do Coreto. Os corifeus do regime tudo fizeram para que os horrores do Norte não incomodassem o Comité Central. Contaram aos seus que as emoções da turba burguesa traziam sempre muita infelicidade. Eles eram a luz, o Farol do Socialismo, e os do alto representavam a escuridão, o passado. Na proa do “Torpedo” o Almirante Craveiro Lopes olhou para o horizonte e sentiu a grande força romântica do povo de Paço de Arcos, o impulsionador das verdadeiras transformações, o projector que iluminava a vida com mais vida.
- Quando os virem, pedrada até lhes partirem os cornos, a reacção não passará, - gritou o Pingalim, que tinha sido promovido a cabo pelo coronel Cabrita, e comandava um destacamento de cinco bolchevistas, que glorificaram a violência como resposta à violência que alegadamente os cercava. Eles conheciam os relatos da brutalidade extrema dos homens do Comandante Guélas, que chegavam ao cúmulo de usarem as meias do Ánhuca e as cuecas do Bajoulo para extraírem informações. Pesadelos destes tiravam o sono a qualquer um. O General Titó olhou para os lados da ponte e lembrou-se do seu antigo amigo que agora comandava a Invencível Armada, algures dentro daquele nevoeiro cerrado. A Revolução dos Cravos tinha acabado com o que de mais sagrado existia, a amizade. Mas só assim é que ele conseguira passar de pescador analfabeto a gerente diplomado e tudo graças ao partido, que saneara do banco o vizinho burguês.

Episódio 15

O Dia D

“Alegre Apocalipse”, foi o nome de código dado ao desembarque dos aliados na praia de Paço de Arcos no dia 25 de Novembro de 1975, pelo ideólogo dos territórios do Norte, o burguês Carlos Ponta. Mas duas pequenas alterações mudaram o rumo da história para sempre: uma devido à acção da Natureza e outra à acção do Homem. A primeira esteve relacionada com a maré, que estava a descer na altura da partida e devido a isto a viagem foi muito rápida, e a segunda foi causada pelo “Carapau Cocciolo”, o Repimpa comprado nos Armazéns do “Grandella”, que trouxera um defeito no pipo. Quando a “Invencível Armada” estava a passar ao largo da Praia Velha, que um dia foi a preferida do rei, o pipo deficiente deu o último pio e o ar saiu de rajada, ficando toda a tripulação a olhar escandalizada para o João da Quinta que, contra todas as ordens superiores, insistira em comer uma feijoada no restaurante “O Dinamite de Caxias” na noite da véspera. O Almirante deu de imediato ordem de desembarque, pois o estrondo tinha acordado as gaivotas do Bugio e possivelmente as tropas do inimigo, acabando com o efeito surpresa. Pelas “onze horas e trinta e cinco minutos do dia 25 de Novembro do Ano da Graça de Nosso Senhor de mil novecentos e setenta e cinco”, a “Invencível Armada”, comandada pelo Almirante Craveiro Lopes, desembarcou o glorioso exército do Comandante Guélas, constituído por uma união mística dos povos do norte da vila, que se auto-intitulava “região ecuménica de valores”. Em frente do marinheiro uma inscrição numa parede chamou-o à atenção:

“Manel, a partir de hoje fazes tu o jantar! Assinado Maria, Viva a Revolução dos Cravos”

- Prometo-vos que hoje ao jantar as Marias voltam para a cozinha!
O senhor Charlot (nome oficial Daniel) colocou-se à frente da expedição e deu ordem para a invasão cantando, com o único pulmão disponível, o hino do Alto de Paço de Arcos, “É Motorista”. O povo idolatrava-o e a partir daqui beatificou-o. Quem assistiu do balcão a todas as movimentações deste poderoso exército, descreveu a cena como uma epopeia pintada em muitas telas abertas. O senhor Palitó encontrava-se em cima da maior árvore da Avenida, que ostentava no topo uma enorme bandeira vermelha com uma foice e um martelo, a “caçar pardais nas curvas” com a sua espingarda de canos tortos, quando viu passar por baixo o cantor-herói, descalço, deixando riscos no alcatrão com as suas magníficas unhas. Atrás ia o Horta, o proprietário do Navio Almirante, em mangas de camisa e com sapatos de cabedal brancos, pontiagudos, decorados com a figura do leão “Kimba”. Atrás ia o resto do faraónico exército, pronto para enfrentar as massas vegetantes de uma revolução sem regras, que tinha criado uma nova classe social, os Humilhados e Oprimidos de Abril (HOA). À medida que o exército do Comandante Guélas ia avançando em direcção ao último reduto do inimigo, na Praia de Paço de Arcos, o povo aplaudiu os novos libertadores, dando a sensação de serem todos filhos da mulher do almirante, a Quitéria Barbuda. O “É Motorista” parecia agora uma melopeia eclesial, com batida forte, cantada por toda a gente, formando um espantoso espectáculo visual. De um momento para o outro apareceu, vindo dos lados dos correios, um Mini branco com duas pessoas, um adolescente ao volante, e um adulto em pé munido de uma arma de porção-de-ar, que deixou muita gente a coçar a cabeça, intrigada.
- Olha Florbela, um tanque! – Gritou um popular que estava sentado na muralha do quartel de electromecânica.
O Almirante Craveiro Lopes cumprimentou efusivamente esta dupla de guerreiros, revelando terem um laço mais forte do que a dependência dos vícios. Mas quem seria aquele jovem capitão com a “Diana 25”? Iniciou-se uma cadeia de respostas e de contradições.
Quando o General Titó se apercebeu do terrível erro estratégico que tinha cometido, tentou recorrer ao boato para alterar a situação. Pagou ao, um “expert” na matéria, para ir à Avenida assustar o povo: o inglês que se encontrava enterrado debaixo do marco na Marginal, junto à praia de Paço de Arcos, Sir Conway Shiply, tinha ressuscitado e estava a telefonar para Inglaterra, do café “Kitanda” no Pimenta, a pedir o apoio da Royal Navy contra os fascistas. E para provar que tudo isto era verdade, o Titó mandara fundear uma chata ao largo da praia e trocara a tabuleta “Visites Fontainhas Grotten”, por uma com o nome do navio que o bife comandava na altura em que foi abatido pelas tropas de Napoleão, que tinham ocupado Lisboa, o “La Nymphe”, no dia 23 de Abril de 1808. Quando o agente do Sul deu de caras com o pessoal do Norte colocou-se no meio da estrada com os braços abertos.
- Fujam, fujam, o inglês da praia ressuscitou e o esqueleto vem aí, – gritou.
Tudo estava a desfavor dos sociólogos internacionalistas. Dos factos históricos o povo só sabia, e de cor, os cognomes dos reis. Esta história do inglês encontrado morto na praia de Paço de Arcos só podia vir da cabeça de um “drógado”, uma das vítimas do retornado Alice e das suas ervinhas mágicas. O Ló provou ao povo que a contra-revolução do Comandante Guélas era um assunto premente. A cena de um louco com os braços abertos entre dois exércitos só precipitou os acontecimentos. Quando o Almirante Craveiro Lopes chegou à praia, foi recebido efusivamente pelo Pierre Pomme-de-Terre que os informou que o inimigo tinha sido dizimado pelas suas mãos. E para provar o que dissera, apontou para o lago de sangue que ocupava metade da praia, que pertencia às vacas do matadouro municipal. Este “paçoarquiano” patriota representava o amor da fama, o gosto do dinheiro, a inclinação para o luxo, o pendor para o exibicionismo, mostrando ao mundo porque éramos os maiores produtores de cortiça e fabricantes de rolhas. Aclamado pelo povo, o Comandante em Chefe dos Exércitos de Paço de Arcos de Cima (CEPAC), subiu ao Coreto, agora propriedade do Comandante Guélas, e gritou:
- Yo lo heredé, you lo compré, you lo conquisté, – fazendo suas as palavras do seu ídolo, Filipe I de Portugal.
À noite foi oferecido um jantar de sardinhas assadas e vinho tinto na Terrugem ao “bom povo de Paço de Arcos”. Consta que o Titó também esteve presente e foi o que deu mais “vivas” aos militares que libertaram o povo da Parte de Baixo de Paço de Arcos das “garras dos social-fascistas”.


Descida do rio Tâmega a partir de Chaves - 1980

Heróis: Graise, Milhas, Cociolo, Peidão, Pontas e Capitão.

Cociolo, Graise, Pontas, Milhas e Capitão

Foto: Peidão

A pendurarem a mota do Peidão (um anjo)

Pontas, Pilas, Pica, Mac, Focas, Espalha, Nuno M.R., Luis Raul

Guadiana - 1981

Tejo - 1983

 

Mondego - 1984

Douro - 1985

Empurrou o Capitão e ele ia-se afundando com o peso. O militar teve de ser salvo antes que os peixes o comessem todo!

Tejo 1986

Fez uma abordagem ao barco e tentou afundá-lo.

Guadiana 1988

 

Casamento do Peidão

Gerações em Festa

Geração de Oiro

Auto-Retrato de Milionário

Traseiras Paço-Arcoenses

Conselho Pedagógico